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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

24
Nov22

Submundo


— Eterniza-me na pele!

Acocorada, com as mãos transpiradas, apertava os joelhos contra o peito.

Doía-lhe a alma.

Aquele som frenético da agulha carregada de tinta preta, propagava a tranquilidade de que carecia.

Nómada, naquele mundo subterrâneo, a sua pele era arte que se misturava com as cores sujas do betão.

Era uma cliente habitual, por cada vez que incorria na imoralidade castigava a pele. A dor era a sua salvação.

Roubou, enganou, matou e… vendeu-se, apenas porque tinha de se fazer durar.

Não tinha nada, não mais que sua história tatuada no corpo.

— Por favor, eterniza-me na pele!

 

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⚜️ Conto para o concurso da European Association of Creative Writing Programmes - flash-fiction EACWP contest (Portuguese) - texto com um máximo de 100 palavras com o tema “underground”⚜️

12
Nov22

TU


Tens um sol dourado no colo do teu abraço,

que me afaga os cabelos na noite escura,

Sentes a terra húmida no pé descalço,

Lágrimas que chorei devagar, contudo em fartura.

 

O passado habita nos teus olhos esverdeados,

Faz melancolizar-lhes a expressão,

acontecimentos que surgiram encadeados,

Que te distanciaram da missão.

 

Neles reside também a franqueza,

Que me fez acreditar de punhos cerrados,

Que a humildade é uma riqueza,

E só existe nos bolsos dos mais honrados.

 

O teu amor banha-se do que é primitivo

Vive do instinto e fases da lua,

Do premeditado é fugitivo

Nada melhor que o deixar que flua

 

Enrolamo-nos na areia quente

Deste amor que renasceu

O universo ligou-nos, por consequente

Eu sou tão tua, como tu és meu.

 

Uma homenagem a que é Amor para mim.

 

👉🏻 também publicado no blog da @valletibooks REFLEXÕES Nº45 6/11/2022

04
Nov22

Homenagem casamento Tiago & Orlando


Conheci o Tiago com um brilho nos olhos. Sim, aqueles lindos olhos azuis com pintas amarelas que só ele é capaz de ver. O brilho vi-o eu. Um brilho cheio de determinação e bravura, consciente daquilo que queria ser, daquilo que queria ter e daquilo que queria sentir.

Um rapaz de mãos gastas pelo trabalhador que é, de cabeça erguida pelos objetivos que pretende atingir, mas o coração destaca-se pela nobreza e honestidade.

Conheceu o Orlando por mero acasoBom, eu não sei se o destino existe ou não, mas o acaso traz estas surpresas, as quais não conseguimos arranjar razão que as justifique. Este amor, que celebramos aqui hoje, nasceu desses acasos, uma mera casualidade. Quão bonito consegue ser o inesperado? Que consegue mudar-nos a vida assim?

E, se a eternidade é uma ilusão, confiemos na aleatoriedade do universo, que nos trouxe até aqui hoje para aprender aquela religião universal: o amor. Sabendo que a glória, depende de cada um de nós, porque o amor nunca deixará de ser uma escolha, uma escolha diária.

Se o tempo falasse contaria a história destes dois corações que se decidiram enamorar há 5 anos atrás, num seio de coragem e determinação. Falar-nos-ia do Orlando como o suporte, que deu guarida à estabilidade emocional do Tiago. Acrescentaria a dedicação que têm um no outro, e, como em tudo na vida, a tolerância capaz de abraçar tanto as virtudes como as imperfeições. Entre gargalhadas, revelaria os momentos de humor partilhados! Contaria as inúmeras idas e voltas de comboio do norte ao centro e do centro ao norte, que desnorteava os apaixonados quando a saudade decidia gritar.

Se o tempo falasse falaria das dúvidas, dos medos, das questões que foram surgindo ao longo do caminho. Descrever-nos-ia as lágrimas da distância, de uma cega perseverança de quem sofre, mas que não quer desistir! Os punhos cerrados que se erguiam às dificuldades, mas o peito ia cheio para vangloriar o amor que decidiram partilhar.

Hoje celebraremos a liberdade, a de poder amar sem restrições, hoje celebraremos o verbo dar e o acreditar. Dar haveres infinitos, os que não são feitos de bens, mas de bem-quereres. E, acreditar, acreditar que tudo tem uma força maior, superior a nós, que nos faz caminhar na vida confiantes e crentes no amor eterno. Porque mais do que pensar na eternidade é acreditar nela. E o amor só será eterno quando “acreditar” for assíduo na rotina diária.

Então, hoje, acreditem e deem todo o amor de que são feitos. Deixemos os comboios de lado, os que fizeram parte da vossa história, porque daqui para a frente será um voo, aplanado nas nuvens da cumplicidade, lealdade e respeito e, quem o pilota são os dois, crentes de que juntos, saberão sempre por onde ir.

No vosso voo deem lugar à liberdade, à individualidade, à escolha, para que sejam sempre livres de serem vocês próprios, com as vossas próprias escolhas. Porque o amor toma uma beleza colossal quando escolhemos livremente em quem entrelaçamos as mãos.

E se o tempo continuasse a falar, que nos venha contar esta belíssima história de amor ouvida e sentida com o coração. E que todas as idas e voltas, todas as viagens, sejam um percurso perfumado, a pé, num voo ou, como dita a história, de comboio mas onde os dois, caminham sempre de mãos dadas, cientes de que este amor é luz, a luz que vos irá guiar para sempre.

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👉🏻 homenagem ao amor, num casamento onde a distância se reduziu pelo afecto e vontade de ficar junto.

 

24
Set22

A ilha


A areia é fina, suave e quente. Devolve-me o conforto de outrora sentido quando me deitava no sofá ao som da televisão. Hoje, esta vasta extensão creme é o meu único assento e o som de fundo as ondas do mar.

Podiam ser tempos de plenitude, pausa e… glória. Mas o tempo é infindo, as certezas desconhecidas e a mente inconformada. Já vai longo o tempo que aqui estou, tanto, que o azul turquesa naturalmente se converteu no meu teto durante os dias e o manto de estrelas, nas noites.

Difícil é ser-se, muito mais o é sendo sozinho. A mente, por vezes aliada, outras vezes adversária, torna-se um músculo forte à minha sobrevivência. Se não o treinar, nada é, nem nada sou.

O meu físico está saudável, mas insiste em dizer-me que não estou bem. Nutro o corpo, treino-o, mas não me faço acompanhar de ninguém. Não posso. Permiti-me repousar aqui para ganhar saúde e tudo o que ganhei foi uma prisão perpétua. Sinto-me um selvagem, um ser sem rumo, com um único propósito: existir. Existir dentro desta casca que tenho de alimentar. Eu sou casca, porque dentro já não levo coisa nenhuma. Os meus neurónios desapegaram-se das conexões cerebrais, comandam exclusivamente o aparelho locomotor, enquanto que no cérebro são apenas um chocalho tosco sem nexo. Salto de pedaços de pensamentos em pensamentos e nunca termino o raciocínio. O discernimento fugiu para o couro cabeludo, não faz parte das minhas opções. Aqui tudo é luminoso, brilhante e claro, mas na minha mente não há sol, é sempre inverno tempestuoso.

Hoje pesquei. Não me perguntem o quê, porque não os sei distinguir. O sabor eu já conheço de cor, pois é um dos que rompe muitas vezes no suposto anzol que inventei com um espinho de cato. Mais tarde, sentei-me em meditação, mas a noção esquiva-se e o sol queima que nem lava. O foco desfoca-se e a pele arde.

Queria ouvir o som das ondas do mar, mas tornou-se quase inaudível, pela presença ininterrupta. Ao início era relaxante, forte, penetrante, quase como minha cúmplice, agora… magoa-me.

A solidão magoa-me.

Agarrei-me a este caderno para não perder a cabeça. A cabeça não a perdi, perdi o sentido, talvez todos os sentidos do mundo. Escrevo aqui para me poder ouvir, porque a solidão entope-me os ouvidos e estas letras são a minha companhia. Eu sou a minha única companhia.

A que soa a tua voz? Não me lembro.

Quero recordar os corpos, o contacto, aquele teu toque no meu pescoço, o bafo húmido de uma respiração que não a minha. Não consigo! Não sei! Não encontro memórias desses tempos que me alberguem estes neurónios desconexos.

Escrevo, porque falar já não sou capaz, nem sei se me sai algum som pela boca. Terão as minhas cordas vocais enferrujado? Será assim que se transfigura o ser mais só da terra?

As frases formam-se na minha cabeça, através de imagens que já não sei verbalizar. Existem coisas que já não tem nome. Às vezes, nem eu tenho nome.

25
Ago22

A casa


Oiço o relógio da cozinha, o som de fundo a passar os segundos, este silêncio está carregado de ti e quase consigo ouvir-te falar. Não quero esquecer a tua voz.

Aqui ainda existe tempo, o dos relógios. Os de pulso até então perduram. Mas tu não. Esta casa vazia respira a ti em cada canto, vives neste som, o dos segundos, mesmo quando o teu tempo já acabou.
Guardas-te as nossas fotografias com intenção de estares na minha presença, hoje, guardo-tas eu, para poder viver a tua memória nelas.
Deixaste-me as nozes e o doce de abóbora que como demoradamente. Não quero que acabem os haveres de ti.
Uso o teu champô, só para poder desfrutar de bocadinhos do cheiro que cá deixaste. Também o economizo.
Eu sei que estás aqui comigo. Mas dói! Dói-me muito a certeza de não te poder ver mais. E meto-a num bolso lá distante, porque prefiro viver no sonho onde tu ainda estás aqui à minha espera. Mas quando meto a mão ao bolso e tiro de lá a certeza… ai Avó! O meu mundo arruina-se, como se fosse a primeira vez.
Levo daqui tudo o que de ti posso levar, encho a minha casa de coisas outrora tuas, a fim de te demorares comigo. Não te quero apagar dos meus dias.
Sinto que ainda existes nesta casa, mesmo já não estando alguns dos teus pertences. O teu cheiro, as coisas do teu modo, o ambiente ainda é o teu, sabes… é como se esta atmosfera te tivesse engolido e vivesses dentro dela, em cada canto, até em cada puxador. E eu? Eu só quero ficar aqui para te sentir mais um pouco no meu dia… para também eu ser engolida e dentro da atmosfera me possa encontrar contigo.
Estas paredes têm a tua força, a tua resiliência… e no recheio ficou o conforto, que sentias nos dias que aqui passavas. Consigo incorporá-lo, quase para te tocar…
Custa-me desapegar deste pedaço de ti, não imaginas o quanto eu gosto de estar aqui contigo. Nesta forma estranha de te sentir e de estar no teu embalo…
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📸 from pexels.com by NEOSiAM 2021

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