Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

30
Out22

Superpopulação


“Pessoas a mais tem o mundo”, pensou enquanto agitava o copo de uísque numa mão, na outra, segurava o telefone, aberto numa rede social qualquer.
“Pouco importa. Somos tantos aqui, como somos no mundo virtual.”, pousou o telefone, o scrolling excessivo trazia-lhe a solidão. “Somos tantos… e temos mais stories do que histórias, mais seguidores, que amigos de verdade…”, voltou a pensar, pelos vistos, a mãe terra tornou-se insuficiente e o mundo virtual tem de levar por tabela, coexistindo lá por longos intervalos de tempo.
Acendeu umas velas com cheiro a jasmim e aromatizou o ambiente com bossa nova, de copo na mão, balançava-se sem os pés darem conta, nem o seu cérebro saber.
Adorava finais de tarde, deslumbrava-se com o alilazar do céu, aquele momento egrégio que era o alvo de “regresso à calma”.
Respirava fundo, para se manter presente, cheirar a terra molhada que vinha das janelas abertas; a pele morena arrepiava-se sempre, aquele era o momento destinado à reflexão.
“Será que mais alguém repara na beleza deste céu?”, o cor-de-rosa que, serenamente, se estendia a azul, mesmo acima dos prédios, com as chaminés e antenas a interromperem o cromático de um céu que se prepara para adormecer.
Ao fundo, os fios elétricos do comboio que liga a capital à periferia, uma linha que atrai aglomerados de gente de todas as cores para sobreviverem num sistema onde o dinheiro se multiplica para os ricos, enquanto que para os pobres, o quadro não fica bonito!
Contam-se os tostões que já vão no bolso, porque debaixo da cama passou a ser arriscado. O dinheiro é reproduzido pelo suor do tempo, não há dicas nem magia que recheiem as contas bancárias das vidas destas almas; a finalidade deixou de ser a felicidade, o brilho nos olhos ao acordar, para ser a folga em dígitos numerários assim que se termina os pagamentos das despesas obrigatórias à vida.
Com o dedo indicador retirava os cabelos ruivos que lhe intersectavam a visão “Onde vamos parar?”, pensou, a ocidente matam-se com explosões, um tomo na história. Pólvora ensanguentada que faz banhar os pecadores de um falso poder. Um poder que não existe, pois a imortalidade é invisível e, afinal, todos morremos, somos todos subordinamos do grande mistério da vida e… da morte.
É interrompida pelo som da broca que advinha das obras no andar de cima. O vizinho vai ser pai e julga que aperfeiçoar o apartamento irá trazer maior felicidade à filha que aí vem. 
“Como pode o vizinho achar que a casa fará diferença, quando traz uma criança a um mundo carcomido destes?” E os ecologistas já disseram:
— A superpopulação é um problema sério. - “Mas ninguém quer saber! Nem o vizinho!”
O barulho continuava, “Como odeio apartamentos.”. 
Num só trago bebeu o que restava da bebida, deixou o gelo a tilintar no copo e os pensamentos a marinar no oceano do seu juízo. 
Aquela maré cheia de um mar revolto de reflexões, vazou… até à próxima lua, que num entardecer bonito como aquele, voltará a ganhar ondas de senso e, talvez, quiçá, transformar-se-á em maremoto.
 
👉🏻 poderás encontrá-lo também no blog da @valletibooks REFLEXÕES N°44 - 30-10-2022 e no Spotify do blog da Valletibooks.


Autoria: Tem juízo, Joana
Declamação: Tem juízo, Joana & Carlos Palmito
Produção: @Valletibooks - Luiz Primati
15
Out22

Quando a lua dança


Noite que se pôs cedo, sob uma lua amarelada e cheia. Como ela odeia o horário de inverno, estes dias curtos e escuros, que a deixam mal-humorada. Segue pelas ruas de auscultadores postos a ouvir as músicas que fazem sentir-lhe as raízes. Por ali, a inveterar pelos ouvidos tudo o que ela é, vai andando ao passo que dança. O corpo contrai-se involuntariamente, está-lhe no sangue, não há como contrariar.

Estas cantigas recordam-lhe a infância, as festas de família, amigos e espectáculos de dança com variados grupos de que fazia parte, julga terem sido o cenário de semeadura daqueles ritmos na sua anatomia, entranhados por todos os orifícios.

Naquele passo díspar, num compasso dissonante dos demais que por ela passam, o olhar vai-lhe vazio, porque se olha a dentro e… Sorri, sorri de prazer com o que a faz sentir.

Nunca ouve uma música do início ao fim, quase como superstição, pois do trabalho até casa, ela tem de conseguir ouvir as melodias que lhe fazem vibrar o corpo.

Lá em cima a lua assiste, grande e magistral, a esta manifestação eloquente do que a junção de tambores lhe impõe à sua espécie, numa cadência e vigor como se não houvesse outro dia.

----

 

👉🏻 também o podem encontrar no #blog da @valletibooks REFLEXÕES nº 38 - 18/09/2022

15
Set22

Um possível fim


 

De que nos vale a inteligência ou a força humana, quando comparados à força da natureza?

Num mundo cheio de paisagens, criaram o homem cheio de impureza.

A catástrofe? Foi a ganância.

Os homens obcecados com cifrões e a terra que pisam deixou de ter importância.

Ambição pelo poder, quando o poder é apenas um estatuto.

Usou-se e abusou-se do planeta, julgando-o um recurso inesgotável e absoluto.

A extinção fez a guerra. Homens que se matam por terra.

E, inesperadamente, é a natureza que se revolta, zangada com a humanidade.

Que largou o amor e o ódio anda à solta.

Pela sobrevivência, conseguimos ser abomináveis.

A sentença foram águas salgadas, impiedosas forças inquestionáveis.

Lavaram e levaram as almas pecadoras,

ambiciosas e destruidoras.

Afogaram-se os desejos egoístas, através de um manto salgado, que cessou a vida aos homens, inclusive aos narcisistas.

25
Ago22

A casa


Oiço o relógio da cozinha, o som de fundo a passar os segundos, este silêncio está carregado de ti e quase consigo ouvir-te falar. Não quero esquecer a tua voz.

Aqui ainda existe tempo, o dos relógios. Os de pulso até então perduram. Mas tu não. Esta casa vazia respira a ti em cada canto, vives neste som, o dos segundos, mesmo quando o teu tempo já acabou.
Guardas-te as nossas fotografias com intenção de estares na minha presença, hoje, guardo-tas eu, para poder viver a tua memória nelas.
Deixaste-me as nozes e o doce de abóbora que como demoradamente. Não quero que acabem os haveres de ti.
Uso o teu champô, só para poder desfrutar de bocadinhos do cheiro que cá deixaste. Também o economizo.
Eu sei que estás aqui comigo. Mas dói! Dói-me muito a certeza de não te poder ver mais. E meto-a num bolso lá distante, porque prefiro viver no sonho onde tu ainda estás aqui à minha espera. Mas quando meto a mão ao bolso e tiro de lá a certeza… ai Avó! O meu mundo arruina-se, como se fosse a primeira vez.
Levo daqui tudo o que de ti posso levar, encho a minha casa de coisas outrora tuas, a fim de te demorares comigo. Não te quero apagar dos meus dias.
Sinto que ainda existes nesta casa, mesmo já não estando alguns dos teus pertences. O teu cheiro, as coisas do teu modo, o ambiente ainda é o teu, sabes… é como se esta atmosfera te tivesse engolido e vivesses dentro dela, em cada canto, até em cada puxador. E eu? Eu só quero ficar aqui para te sentir mais um pouco no meu dia… para também eu ser engolida e dentro da atmosfera me possa encontrar contigo.
Estas paredes têm a tua força, a tua resiliência… e no recheio ficou o conforto, que sentias nos dias que aqui passavas. Consigo incorporá-lo, quase para te tocar…
Custa-me desapegar deste pedaço de ti, não imaginas o quanto eu gosto de estar aqui contigo. Nesta forma estranha de te sentir e de estar no teu embalo…
————
📸 from pexels.com by NEOSiAM 2021

23
Ago22

Era uma vez uma flor…


Era uma flor instalada num caule cheio de espinhos. Era intuitiva, selvagem e carinhosa. Os espinhos, ela limava-os, com uma lima coberta de paciência, áspera pela censura que a própria se deixava infiltrar. Com afinco limava-os crente na absolvição, mesmo tendo, os espinhos, crescido nas mágoas, decepção e dor.

Era uma flor que de noite se encobria e de dia sorria. Porque os fantasmas saem para o escuro, amedrontam, e o sol abrilhanta as almas benfeitoras deste mundo.

Pousada num bonito jardim, cheio de espécies que lhe ofereciam, ora sombra, ora sorrisos, vivia para fazer parte da natureza, consciente dos ciclos vida-morte-vida.

Com o vento roçava as suas pétalas nos demais, sabendo que aquele contato era um momento de prazer. O vento era o responsável pela ternura, pelo companheirismo e aconchego daquela comunidade.

Era uma flor perfumada de boa-disposição e criatividade. Esse perfume que, inesperadamente, dava frutos suculentos e apetitosos, e que ela os distribuía, fiel de que o amor só assim se partilha… com frutos.
Quando não se frutificava, escondia-se, ciente da solidão necessária para a evolução da sua espécie. Escondia-se com medo que outros olhos a vissem naquele retiro, carente de reflexão.

Era uma flor, uma flor que não se arrancava do solo. Porque as flores só crescem na sua própria terra, que se quer fértil. Porque as flores só à sua terra pertencem, e, apesar de estarem ligadas a tantas outras raízes, não são posse de ninguém.
————
👉🏻Texto publicado no blog da @valletibooksREFLEXÕES Nº 34- 21/08/2022

👉🏻poderão também ouvir no podcast da @valletibooks através do Spotify.

Mais sobre mim:

Segue-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Novembro 2022

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D