A idade é um número
A idade é um número que o tempo inventou. Porque o ser humano gosta de ter tudo contado, até o tempo do corpo.
Não sei quantos corpos já tive, se a minha alma é feita de tempos que nem a minha mente alcança, dá-me vertigens pensar como cheguei até aqui.
Neste corpo, sou uma mulher feliz! Gosto de lutar pelos meus direitos, e agora pelos da minha filha. Gosto não… TENHO DE!
Ás vezes, sinto que o meu propósito é maior que eu. Isso, ao mesmo tempo que me assusta , traz-me a força de mil homens e a generosidade dos mil e um corações de que sou feita. Contudo, sofro por pensar que posso não ser capaz. Desiludir.
Gosto de comer, especialmente polvo, chocolate e pad Thai. Gosto de escrever sobre o meu mundo, para que possa desembrulhar e interpretar o fluxo do sangue que me faz sentir o que respiro da minha verdade.
Deixei de ter o controlo do mundo e o mais fascinante — é que foi pelas mãos pequenas de quem já sabe dizer o meu nome, com a certeza de quem manda.
O egoísmo deu lugar ao amor incondicional, que nunca se cansa, nunca acaba, nutrido de energia infinita sem saber como, nem porquê. Ela comanda até as rotas do meu pensamento, vivo através dela e, por vezes sem me sentir. Redescobrir-me tem sido uma missão difícil, como todas as que demandam crescimento. Esbravear espaço e tempo numa agenda materna é tarefa de guerreira exímia, sob o olhar julgador de quem acha que o faz melhor.
Eu ainda gosto de ser criança, de me deslumbrar, de olhar o mundo com os óculos do amor, mais agora que tenho quem me acompanhe. Isso não me faz irresponsável, mas sim uma alma inteira — inteira para amar, para rir alto, para inventar mundos debaixo das mantas, para transformar rotina em magia e constatar que o tempo foi inventado a uma velocidade desproporcional para quem gosta de viver presente.
Sou feita de gargalhadas e cuidado, de colo e tempestades, de histórias contadas com os olhos a brilhar, de canções cantaroladas no silêncio perfumado de mãe.
A minha criança interior não me distrai do meu papel, ela guia-me, lembra-me do que é essencial. A minha alegria não é distração — é resistência. O meu riso não é descuido — é abrigo. O amor com que te educo não é leve — é imenso, é escolha diária. Porque ser mãe, para mim, é ser raiz e vento, porto e aventura, é saber cuidar sem apagar a luz que me acende. E quem melhor para criar um pequeno universo, do que alguém que ainda acredita que o mundo pode ser encantado?
O mundo está um lugar perigoso, há dias que temo e questiono se de nada valerá tanto esforço. Se continuar a acreditar na luz, fará diferença quando tudo parece escuro. Mas se o mundo é duro, que em casa haja ternura. Se lá fora é guerra, que em nós haja dança e um pedaço de infância que ninguém nos roube.
Hoje, mais um 2 de Agosto, mais um “parabéns a você” cantado em plenos pulmões, mais um ano, mais passos dados, às vezes firmes, às vezes tropeçados, mas sempre com o coração inteiro.
Quero deixar o meu legado, não só para o corpo que virá depois, mas para ti, que me tornaste imensa, que me fizeste espelho e céu aberto.
Lembrar que o essencial vive nos gestos que se repetem com doçura, nas palavras que abraçam, na liberdade de seres quem és, sem medo.
Porque crescer não é só envelhecer. É saber onde dói, e ainda assim avançar. É não precisar ser eterna — mas ser inteira.
E no fim de tudo, quando tudo em mim se cala, será sempre o amor que resiste.
