Carta dos céus
Estou aqui, filho.
Vivo nos teus arrepios de pele, no ar que inspiras. Sou a tua mais dolorosa nostalgia. Bem sei o quanto te dói recordar-me e, ainda mais, amar-me no vazio de um céu que não vês mas que te esforças por acreditar que existe.
Cada um acredita no que quer, ou no que mais lhe convém. Somos seres de uma esperança tão eterna quanto o fundo do universo.
Será que tem fundo? Fim? Pois não te sei dizer… Escrevo-te de um lugar onde o tempo não pesa e a ausência é só um outro jeito de estar.
Costumo falar-te ao ouvido, às vezes dou-te conselhos, relembro-te recados que tens para fazer, outras vezes canto-te cantigas do nosso clube. Coisas que não ouves, mas eu encorajo-me sempre a continuar. Precisas destes lembretes, nunca foste muito atento na escola e agora… também te distrais com tanta informação a cavalgar na tua direção.
Costumo rir-me dos teus disparates. E na maior parte, riu-me com todas as minhas forças. Sinto falta de me rir assim, até me doer a barriga ou virem-me as lágrimas aos olhos. Neste mundo onde vivo agora, nada sinto. Se não, saudade.
Saudade é uma palavra bonita para significar tamanha dor. Logo eu, que fui-me repentinamente como uma vela acesa ao vento. Eu sei que não esperavas que eu fosse, para ti sempre fui um herói inabalável, intocável até pelas mãos de Deus. Eu sei, meu filho, aliás neto. Também sei que choras porque nunca tive nos braços a tua filha e não lhe apanhei os trejeitos… enganas-te, rapaz! Sou o teu maior espião. E sei bem quantas vezes lhe repetes quem eu sou, para que ela me reconheça nas fotografias, como uma borboleta presa numa moldura de vidro. Preservam-me a forma mas não a essência. Só tu sabes a minha essência. Só tu a sentes. Sabes bem do que falo, meu campeão.
O avô vive nas histórias que te contou, algumas nas que te contaram. Vivo no sabor das carcaças frescas em dias de verão, no som sonante de um golo em estádio cheio, nas boleias entre a escola e casa, nas torradas ao pequeno-almoço antes de ires para a escola, num belo copo de vinho de pacote. Mas também estou nos gestos gentis que espalhas pelo caminho, no amor que cultivas em cada passo, no respeito que tens ao próximo, estou nestes valores e noutros gestos que de mim herdaste. Não estás sozinho!
Também eu sinto a tua falta. Ai mãe! Parti sem a despedida que merecíamos… Se o tempo nos tivesse dado esse momento, não saberíamos o que dizer. Ficaríamos ali, frente a frente, presos entre a dor da partida e o desejo de segurá-la um pouco mais, como quem tenta reter a areia entre os dedos. Então, o destino poupou-nos das palavras que nunca seriam suficientes. Fui sem aviso, mas não sem amor, pois lembra-te que a saudade é só outra forma de amar.
Oh mancamulas, não te deixes ficar para trás! Vive com a coragem de quem sabe que nunca está só. Porque o adeus que nunca houve é a prova de que, de algum jeito, eu nunca fui.
