Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

06
Set20

Despedidas de criança


7EA7380B-57DC-4FCF-8414-BD27D82A06E5.jpeg

Ver-te com as lágrimas nos olhos é coisa que me dói...

Tu, que adoras brincar comigo, que és louco por mim, como nunca ninguém foi...

Na hora da partida, ficamos com o coração apertadinho, a desejar que nunca aconteça. E tu, és tão forte, com 3 anos, és mais forte que eu.

Com 3 anos, tentam-te explicar que a vida é feita também de despedidas, quando na tua cabeça só passam histórias de encantar. Não quero que te tirem o brilho dos olhos, nunca.

Mas tu és tão forte, ficas ali, paradinho, não queres assistir a despedidas. Só dizes “não vás embora” na tua língua que só alguns compreendem. De olhos vermelhos, cheios de água, mas não choras. És tão forte, tu, quando a mim só me apetece chorar... e choro... mas tu não. Já sabes que os olhos quando não veem, o coração também não sente, ou não sente tanto. Sabes tão bem disso, que só queres que esse momento passe rápido, para te esqueceres dele e voltares às tuas histórias de brincar. Aquelas que vives com um sorriso. Ou até mais que um.

Digo que te amo, sem saberes ao certo o que isso significa. Como podes tu saber o que isso significa? Tantos adultos ainda nem sabem... Mas tu sabes que é uma palavra importante e retribuis-me porque, certamente, tem o tamanho do que estás a sentir.

 

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

26
Ago20

Novelo de lã


1F6C65B2-2DBB-4BDB-B9DD-B67FF2E87CF8.jpeg

Um novelo de lã envolve-nos.

Duas amigas que o tempo gostou de ir enrolando, bem apertadinho. Aqui e ali, a vida tornou-nos em algodão 100% amizade. Às vezes tricot, crochet, às vezes saudade, fazemos do novelo um lar, doce lar.

Somos duas, num novelo de várias cores, das cores que fizeram os nossos sorrisos, das cores que fizeram as nossas lágrimas também.

Em lã quentinha que nós a tornamos, criámos um novelo. Um novelo que envolve dois corações, num rolo bem sincronizado. De tão ajustado que não se desfia, só se desenrola para fazer arte. A arte onde moram as nossas vivências, numa amizade que não se desmancha, puxes o fio que puxares.

 

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

21
Ago20

A história de um lago


0F6FFBEE-B4D8-4A0D-AFC5-4618606BDB4B.jpeg

Era uma vez um lago que servia de casa a alguns animais.

Uma casa grande com uma ponte, fetos, pedras e nenúfares.

No lago viviam rãs, que treinavam as suas vozes durante a noite, dando música a quem os queria ouvir.

No lago viviam também lagostins, já viveram peixes, se bem que agora não tenho visto nenhuns...

A minha mãe criou a D. Ilda em casa, uma tartaruga cheia de requintes, pança cheia e sempre com os melhores tratos. Quando ela atingiu a idade adulta, deu-lhe o lago, como o maior presente que qualquer tartaruga gostaria de ter.

Facilmente a D. Ilda se adaptou ao novo lar. Adora esconder-se debaixo dos nenúfares e parece-me fazer amigos e inimigos também. Portanto, dá-se bem na sua nova casa.

Vim ver a D. Ilda, enquanto estava de férias.

A D. Ilda tem estado a ser bem alimentada! Diariamente, com grandes doses de granulado, como se fazem aos cães. Já a vi escondida perto da ponte mas, ela fugiu para debaixo da planta flutuadora, onde ela gosta de estar! Entretanto, já comeu mais um lagostim... mas, as rãs também podem ser as culpadas do desaparecimento dos pobres coitados. Não sei se elas gostam de lagostim para o jantar, mas a D. Ilda parece gostar!

Era uma vez um lago, onde agora vive a D. Ilda.

17
Jul20

O meu saber dançar


B0207EEB-E82F-4EC3-ACA8-67DC6096C488.jpeg

Há ritmos que nos fazem contorcer o corpo. Há músicas que nos conseguem aquecer a alma e fazer gingar as ancas. Aquele swing no corpo, num corpo cheio de cadência e cores garridas. Sou desse tipo.

Descobri este jeito em miúda. Num grupo com as minhas amigas. Víamos o Michael Jackson em loop na tentativa de o conseguir imitar. Dançávamos bem, cheias de energia e sorrisos, as bochechas abanavam bastante cada vez que saltávamos. Chamavam-nos, em tom de ternura, a brigada nestum com mel. Éramos rechonchudas mas dançávamos com afinco e mel! Muito mel!

Ainda tomei a coisa mais séria e tornei-me parte de um grupo que ainda hoje trago no coração, com grandes amizades.  A dança, realmente, tem esta sabedoria de aproximar pessoas pelos ritmos que atravessam os corpos.

Hoje, danço em casa, enquanto cozinho, enquanto estou nas lides da limpeza, no carro, mas sempre que oiço um bom ritmo lembro-me do quão gostaria de o partilhar, num bom momento de swing, com as minhas meninas. Num momento em que os nossos corpos se contorcem de tão prazeroso que o ritmo é, com os rostos franzidos de tanto sentir e um sorriso malandro, só pelo gozo que dá.

No que toca ao meu saber dançar, são elas as minhas cúmplices!

 

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

01
Mai20

De chuchas ao peito


3325581E-FFD4-4997-8D9D-4332E729F929.jpeg

Um colar de chuchas penduradas ao pescoço. Várias, como quem carrega o prazer ao peito. Criei uma dependência no conforto de uma chucha na boca e outra que esfregava o nariz pelo gosto da suavidade na pele, um vicio que me aconchegava do peito para cima.

Nunca fui muito fã de Barbies. Eu era a que tomava conta de nenucos, cuidava como se fossem reais e meus. Eu, com chuchas ao peito e viciada em sucção, dava-lhes papas, embalava-os e também a eles lhes dava chuchas para serem tão viciados quanto eu.

Eram tão bem definidos os meus horários de brincar, estudar, deveres e afazeres, como os meus caracóis caídos em cachos pelos ombros. A minha mãe fazia questão que os cumprisse à risca em troca de tempo para ser feliz. Quanto aos caracóis, um dia cortou-mos. E levou-me toda a rebeldia que trazia no cimo da cabeça.

A minha infância foi uma prateleira cheia de VHS de desenhos animados. Filmes da Disney com bolachas Maria e leite ao lanche. Lanches que já nem lhes sei distinguir o sabor.

As bolachas com leite ficaram retidas nas gordurinhas do dorso das minhas mãos e nos refegos, onde houvesse espaço para eles existirem. Gordurinhas que não saiam impunes aos beliscões do meu irmão.

Foi uma infância onde tudo era fácil, excepto o confronto de personalidades entre irmãos. Desde os beliscões, às divergências nos gostos musicais, à disputa pelo tempo ao computador. Uma relação que se tornou num desafio, que não fazia ideia que iria desafiar-me pela vida fora.

Ainda consigo sentir aquele cheiro matinal a Davidoff intenso, perfume carregado de masculinidade, do meu pai. Um pai que marcou a minha infância não só pelo amor, mas pela rigidez. De mãos grandes, fortes e ásperas do trabalho, se havia castigo pior, eram aquelas mãos abertas, de meter medo, sedentas de razão na minha direcção. Reconheço nelas o esforço para que nunca me faltassem cores vivas à minha infância e, todas as manhãs, pairava no ar daquele hall o cheiro a Davidoff que inspirava a todos autoridade e protecção.

Aprendi o formigueiro na barriga com saraus de ginástica e espetáculos de dança antecipados por inúmeras idas à casa de banho inesperadas. Tudo era ritmo e flexibilidade na minha infância. Festas de aniversário cheias de gomas, os triviais pães de forma com queijo e fiambre, brincar ao quarto escuro, às escondidas, o cansaço nunca era desculpa, mesmo quando o suor me colava a roupa ao corpo. Uma infância cheia de hakuna matata’s, onde os problemas eram para esquecer, quando nem sequer existiam e as nossas cabeças caiam para trás de tanto rir. Risos autênticos.

O amor era fácil, escorregava bem entre as goelas. Tive tanta pressa de crescer! Tornei-me à pressa, tanta, que o amor passou a arranhar na garganta. Tanta pressa para ser livre, sem noção que no crescimento há a extinção da magia do hakuna matata e que o amor, talvez até a vida, às vezes custaria a engolir.

Idas à casa da melhor amiga, festas pijama com autorização dos pais, ir brincar para a rua. De uma leveza e graciosidade que fazem doer as memorias. Memorias que ficaram para lá do que me consigo lembrar.

O meu quarto teve várias cores, xadrez de vermelho e verde, mas o laranja e amarelo passaram a ser predominantes. Um espaço cheio de sorrisos até nas prateleiras, também uma coleção de sapos em cerâmica. Sapos a beijarem-se, sapos ginastas, sapos universitários, alguns com brilhantes e disfarces que me despertavam um brilho nos olhos, vá-se lá saber porquê. Prateleiras que custavam a limpar. Mas era o meu dever. Fui uma criança feliz sempre com deveres bem definidos, já não tanto como os caracóis que se transformaram em ondulações assimétricas, a maior tristeza da minha mãe.

As chuchas deixaram de estar ao peito, de orgulho a vergonha. Com um desmame prolongado, de tortura, apenas uma, passou para a gaveta, escondida aos olhares. Com 7 anos ainda sofria deste embaraço. Diziam-me que já era crescida demais para usar chucha, mesmo quando eu não queria crescer.

Hoje, anseio por canções da Disney só para me aquecerem o coração e fazer lembrar de como era fácil. Oh Joana, ainda sabes quantas cores o vento tem? Já nem te lembras da última vez que pintaste o vento. A maturidade roubou-te este saber, o das cores do vento.

 

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

 

Mais sobre mim:

Segue-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Julho 2021

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D