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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

14
Ago25

Um céu


Havia um céu escondido entre as páginas do vento e tu espreitavas sorridente. Uns dentes imaculadamente brancos apesar dos pequenos desvios nos caninos, os lábios finos como um traço de tinta num quadro inacabado, sorrias com a alma simples de quem é feliz apenas existindo.

Eras a estrela dançante no baile azul-saudade festejado em todos os eclipses entre a vida e a morte. Não te abalas com o que é incontestável e segues, segues de cabeça mais erguida do que o sol quando rompe a noite.

De ti, herdei esse desembaraço, quase como uma segunda pele com a qual não sei viver. Herança ousada de quem nasceu sortudo, como eu, que escolhi entrançar-me em ti e nos demais laços de sangue, nunca sabendo como os desatar das várias partes do meu corpo moído.

Acalcaram-me a vulnerabilidade, porque tudo o que é fraco, não tem sucesso. Dizem eles. As fraquezas são para quem não sabe vencer e eu tinha de vencer. Tenho, aliás. Dizem eles. Não posso falhar, falhas são para os que estão desatentos e quem está desatento não merece glória. Diziam eles, quase sem precisar de falar. Mas tu falavas, exprimias com os olhos pequenos e eloquentes um mar de palavras ao vento, para que ele mas trouxesse dos lumes sumptuosos desse olhar que nada dizia, se não amor. E tu sabias… sabias que a fragilidade se trata com amor.

Havia um céu escondido entre as páginas do vento, folheadas por entre dedos humedecidos pela saliva com sabor a alecrim, alecrim aos molhos. De que me valem os álbuns de memórias tatuadas nos lugares onde choram os meus olhos. De que me valem os céus, as estrelas, o vazio, se o teu nome já não se ouve nem no assobio do vento. Eu vivo desta saudade irreverente que me rasga o peito em pedaços atirados à fogueira. Sou a nostalgia dos teus pedaços que ainda moram comigo. Sou o amor que tantas vezes me deste sem arrecadar.

Havia um céu escondido entre as páginas do vento, e quem ousava escutá-lo aprendia a voar sem asas. Num sussurro, uma oração, enches-me da força de que preciso para continuar. Um anjo da guarda, camada protetora do meu todo, minha companhia, omnipresente, infinita. Espero que guardes a minha e a alma dela, de noite e de dia. Nos eclipses endereça-me a coragem, a determinação e candura que prolongue o meu respirar fecundo. E que continues a saber e a ensinar-nos a voar,  cheia de graça, mesmo sem asas.

25
Dez24

Feliz Natal, avó


No teu céu cor das pérolas que levas penduradas nas orelhas, existe uma festa onde só nós dançamos.

Uma é princesa, outra rainha e uma filha. Chamada após chamada, éramos sempre nós.

Nesse céu cor âmbar tal qual os teus olhos outrora vivos, estás em paz com as tuas dores. És doce, aguerrida, altiva. Fazes falta a quem deixaste para trás.

Por entre as rugas do teu peito, moram as nucas que aí descansaram. Um ninho abrasador, aveludado, seguro. Eras isso.

O colo.

Qualquer um é o teu melhor sorriso e, com um deles, iluminas as descidas à terra. Vens lembrar a saudade que faz corrente de ar nos nossos corações esburacados.

Esses espaços ocupados por lembranças, sentem o teu respirar. Guardamos tudo por onde tocaste, tudo o que amaste, para que a tua falta não se faça sentir. Mas cambalhotas sobre cambalhotas, tudo nos leva a ti e tu levas-nos à dor do que é lacerar uma presença ausente.

Hoje é sempre o dia que mais saudades sentiremos, depois de ontem. É uma infinita batalha num coração ferido de recordações masoquistas que queremos recordar mas que doem.

Hoje é sempre o dia que queremos sentir-te connosco, depois de ontem. Interminável vício de querer e não poder.

Hoje será sempre o dia que mais te amaremos, depois de ontem. Como se não fosse possível guardar tanto o amor de alguém.

Mas hoje, depois de ontem, será o dia que todos sabemos o quanto gostarias de estar aqui connosco, se o teu céu estivesse na mesma morada da nossa casa.

25
Ago24

Água, ar, fogo e terra — a Criação


 

No crepúsculo da criação, debaixo de uma lua semi-cheia, ouviam-se gemidos enfurecidos, choro compulsivo e gritos. Mexia-se com uma flexibilidade corrente, capaz de contorcer sólidos, como a água. À medida que se movimentava, exalava a água sanitária das fartas gotas de fluídos verdes. Ele estava mergulhado em secreções, corrimentos, sangue e ela em suor! As peles não eram macias, mas quentes e transpiradas, emanavam um fumo encarnado, em sibilos rápidos e intensos. Naquela meia gruta, os morcegos fugiam a cada eco agudo e mesmo lá fora, o jardim era um mar de flores quase em decomposição, com cada pétala embaciada pelas exalações furtivas da alma.

Trovejava naquela madrugada, as nuvens  eram impulsionadas por um vento velocista e barulhento. “Agacha-te, Beatriz!”, berrava o relâmpago no céu denso, dentro da sua mente de mil personalidades. A brisa fresca daquela noite arrepiava-se ao passar-lhe a pele ardente e continuava o seu caminho oscilante. “Não posso, tenho de esperar!” soprava entre dentes, vezes e vezes sem conta, talvez assim pairando a frase naquele ar concentrado e salgado, ela conseguisse acalmar a ansiedade que lhe tremia os dedos e a máscara que segurava no vazio. Atirou-a num sopro aquentado e desvendou a sua dor.

“Não posso, tenho de esperar!” voltou-se a inflamar pelas pedras gastas, num grito. Doía-lhe, doíam-lhe as vísceras, a alma, a carne, as memórias… Beatriz era agora o fogo de uma alma consumida pela ira da paixão, os seus cabelos eram chamas vigentes e ondeantes, nos seus olhos incendiavam-se os corações que beliscou antes de os dispensar. A dor voraz, impetuosa queimava-lhe a pele e a consciência, ateava-se nos trapos do seu coração e das suas mil Beatrizes, até virar cinzas e… silêncio.

Daquele prisma, Gusmão emergia das águas espirais da criação, uma massa que tocava pela primeira vez a Mãe e a Terra. O solo estável, perseverante e imóvel, abraçava com as suas raízes este ser ainda unido à genetriz. Naquele momento, a vida sorriu e uma luz, tal qual um novo dia, perfurou as folhas das árvores e iluminou aquele vale mágico. E assim, a festa dos elementos chegou ao seu apogeu, revelando o segredo escondido nas cores do arco-íris.

05
Ago24

35


Mais uma volta ao sol.

Não se iludam.

Foi mais um ano que me saiu do couro… pela dureza do que é ser adulto, responsável, pelo compromisso para com a família, pelo trabalho depois de noites e noites mal dormidas, pelo cansaço sem descanso dos dias corridos, pela PREocupação que está sempre a piscar como uma luz intermitente de alerta.

Agora nos meus brilhantes 35 e uma filha de quase 1 ano que é, sem dúvida, a minha vida, sou a mulher mais feliz no meio de tantos sorrisos bem abertos e gargalhadas esganiçadas. É ela que me faz avançar quando o meu corpo só quer parar um bocadinho e também será ela que me fará chegar aos 40 num ápice! 😂

Tenho também um Diogo, que é o melhor peito onde gosto de me recostar e curar-me das feridas. Um pai incansável, dedicado e trabalhador. Um namorado atencioso, espontâneo e paciente…

Hoje, respeito o silêncio, a paz e os momentos em que me vou sentindo EU de novo, que tanta falta me fazem.

Hoje, sou fã desta ternura que nos une aos 3. E grata, muito grata, pela família e amigos que coloram os meus e os nossos dias com as tintas do arco-íris.

Nos meus 35 assim meio desbotados pelos trabalhões e lágrimas, sou extremamente feliz! Tenho rugas em sítios que nunca tive e as mamas abandonaram o seu pouso original. Mas, o coração, esse… está agora no lugar certo!

09
Fev24

2 anos de luto - Espero que ela te conheça a energia


Tomo o café, todos os dias sem excepção, numa das tuas chávenas. Só porque acredito que assim te invoco para ao pé de mim. Que te sentarás à minha beira e me irás dar cavaco.
Até falo alto, sei que ouves mal… talvez agora pior!
Tento escutar-te, quiçá um sinal de que me estás a ouvir… nada! Mas a fé de que estás comigo consegue tornar-me mais surda que uma porta e ocupa-se de que cumpro sempre este ritual para te ter perto.
Falo-lhe de ti, sabes… conto-lhe como és(eras), das tuas traquinices, do teu português atropelado, das tuas rugas fundas. Encho-a de ti! Quero que ela te sinta, que te conheça como eu conheci!
Mostro-lhe fotografias e vídeos teus e rimo-nos as duas, ela nem sabe bem de quê. Na inocência dela espero que saiba quem és, quando te encontrar por aí… nos olhares que ficam a pairar no vazio.
Neste costume tão nosso, choro… choro a saudade eterna que terei de ti. Choro o lugar à mesa de quem a Mariana não usufruirá. Choro pelas gargalhadas castas que ela nunca ouvirá. Choro pelo colo que tanto me deu e que à Mariana não dará…
Mas ela leva um pouco de ti, eu sei! Encarregar-me-ei disso!
Dei-lhe uma parte do teu coração que trago comigo ao peito, dei-lhe as memórias e presumo que também a rebiteza e o fervor. Veremos…
Encarregar-me-ei de que ela viverá contigo, ostentará a tua graça e será abençoada só por te conhecer a energia.

✨2 anos a (sobre)viver sem ti, avó✨

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