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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

09
Fev24

2 anos de luto - Espero que ela te conheça a energia


Tomo o café, todos os dias sem excepção, numa das tuas chávenas. Só porque acredito que assim te invoco para ao pé de mim. Que te sentarás à minha beira e me irás dar cavaco.
Até falo alto, sei que ouves mal… talvez agora pior!
Tento escutar-te, quiçá um sinal de que me estás a ouvir… nada! Mas a fé de que estás comigo consegue tornar-me mais surda que uma porta e ocupa-se de que cumpro sempre este ritual para te ter perto.
Falo-lhe de ti, sabes… conto-lhe como és(eras), das tuas traquinices, do teu português atropelado, das tuas rugas fundas. Encho-a de ti! Quero que ela te sinta, que te conheça como eu conheci!
Mostro-lhe fotografias e vídeos teus e rimo-nos as duas, ela nem sabe bem de quê. Na inocência dela espero que saiba quem és, quando te encontrar por aí… nos olhares que ficam a pairar no vazio.
Neste costume tão nosso, choro… choro a saudade eterna que terei de ti. Choro o lugar à mesa de quem a Mariana não usufruirá. Choro pelas gargalhadas castas que ela nunca ouvirá. Choro pelo colo que tanto me deu e que à Mariana não dará…
Mas ela leva um pouco de ti, eu sei! Encarregar-me-ei disso!
Dei-lhe uma parte do teu coração que trago comigo ao peito, dei-lhe as memórias e presumo que também a rebiteza e o fervor. Veremos…
Encarregar-me-ei de que ela viverá contigo, ostentará a tua graça e será abençoada só por te conhecer a energia.

✨2 anos a (sobre)viver sem ti, avó✨

02
Jan24

Mariana, aos teus 18 anos


Mariana,

O tempo galopou. Correu mais rápido que as rajadas de vento. As voltas ao sol foram na velocidade de um remate forte à baliza do adversário tempo.

Espero ter dado conta de tudo!

Aos teus 18 anos, espero ser uma mãe adulta porreira, que procures para amar e ser amada. Espero ser a mãe que desejaste no dia que me escolheste entrar no ventre. Espero que nutras exatamente o mesmo sentimento que tenho pela tua avó, não menos. Não desejo menos que isso! Que é tanto e um tanto que é tão bom! Como um abraço caloroso aveludado cheio de amor e com cheiro a sorrisos de jasmim…

Escrevo-te esta carta enquanto estás deitada no meu peito, o teu lugar preferido.

Às vezes estou cansada de só em mim dormires, de seres exigente, de quereres tanto a minha atenção, os meus braços, o meu tempo… Chove lá fora e o mundo pode até inundar que, para mim, aqui e

agora, o mundo está todo certo. Enquanto te vejo dormir…

Quero ver-te acordar também, para ser presenteada com o melhor sorriso de todos, aqueles que fazem dos teus olhos fechadinhos duas perfeitas luas minguantes.

A mãe é apaixonada pelo teu nariz arrebitado, herança feminina da nossa casta. Pelos teus lábios perfeitos e os teus olhos amendoados expressivos que me lembram todos os dias o motivo pelo qual me apaixonei pelo teu pai.

Cai-te o pouco cabelo que tens, clarinho e fininho, com cheiro a algodão. Quando ainda vivias no meu ventre quente, imaginei-te uma cabeleira farta e encaracolada, tal como eu. Não importa o que imaginei, tu superaste todas as minhas expectativas! És a mais linda carequinha e não queria que fosses doutra maneira!

Desejo que nos teus gloriosos 18 anos ainda viva a bebé arisca e atrevida que eu conheci hoje, que chama a atenção com falsas tosses, que brinca com os meus mamilos quando já não tem fome, que foge do sono como o diabo foge da cruz. Aos 3 meses de idade, és mais desafiante que qualquer emprego, és mais exaustiva que qualquer actividade física, principalmente nalgumas noites mais agitadas. Mas agora, nada disso importa, por isso mantém essa irreverência para a vida, meu bem, vais precisar dela neste mundo profano!

Segura também a graciosidade, não é à toa que és a “riqueza da avó” e a “bomboca do avô”, seduzes-los com apenas três dedos de conversa e não estou a exagerar!

Já dobras o riso, as tuas gargalhadas valentes fazem explosões de oxitocina no meu corpo cansado. Estás a conhecer o teu corpinho cor da neve, coberto de refegos e… fascinas-me! Com as tuas descobertas, com as surpresas de mais uma habilidade conseguida. És o meu mundo! E olha que a mãe tem muitos mundos, mas tu és o meu preferido!

Eu amo-te filha! Amo-te e todos os dias te amo mais… talvez agora, aos teus 18 anos, nem encontre uma palavra que caiba todo o meu amor por ti.

Não existe palavra com tal tamanho.

08
Mar23

Faz um ano


Faz um ano que nasceu uma estrela nos mundos feitos de outras partículas energéticas. No mundo das coisas palpáveis, deixou as carnes, as ossadas e os pertences.
Faz hoje um ano.
Foi a minha primeira volta ao sol de uma dor vazia, mas cheia de recordações, impotente, mas crucial ao crescimento. Podia chamá-la de dor fantasma, oca, também uma constante moinha no peito… não sei, não sei definir melhor.

Estivesses tu aqui e que eu pudesse desfrutar do teu sorriso, do teu cheiro a colo. Doí-me agora a tua transparência… uma dor desabitada… que me impede de te tocar.
Visitas-me nos sonhos, onde tento matar a fome insaciável de te ter comigo, de te sentir.
Queria-te aqui!
Doi-me até lembrar… mas tão pouco me quero esquecer. Do quanto - Noa- o teu perfume, me cheira a casa, a ninho, a amor. Do sabor imbatível do teu bolo de cenoura mal cozido, que me enchia as peles, que só tu as vias. Das palavras que não sabias dizer porque nunca aprendeste a ler, nem escrever, mas também nunca deixaste de te saber exprimir.
Quem te conheceu, sabe da fortuna que falo. Censuravam-te a franqueza, que derrubavas qualquer um num abalo.
Da tua simples e limpa casinha com cheiro a arroz de cabidela. Fazias-lo exclusivamente para nós, com um enorme sorriso, numa enorme panela.
Das tuas mãos ásperas, deformadas do tempo, mas que estavam sempre a tempo de um cafuné.
Sabes é… desta ternura interminável que sinto falta. Da tua voz meio rouca, mas esganiçada como a da mãe. É a tua doce travessura que me faz ir às lágrimas… porque é disso que mais tenho saudades diárias.
Faz um ano, avó. Faz um ano que falamos entre os silêncios. Faz um ano que rezo, só porque acredito que assim me possas ouvir melhor. Faz um ano que aos sábados de manhã, bebemos café e eu conto-te as novidades. Faz um ano que nada vence a dor da tua ausência. Mesmo depois de um ano a sentir-te omnipresente.

25
Dez22

Um desafio sobre espírito natalício


Estrangula-me o peito
A Saudade

Arde, em dor
Luzes por toda a parte
Os abraços
Aquecidos
Família
Onde estás tu?
Vazio
Escuro
Recordar
Amargo
Pranto salgado
Agridoce
Fazes-me falta!
Canela
Arroz doce
Natal desguarnecido
O teu riso
Promete continuar
Eterna saudade
Estrangula-me o peito

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• sobre espírito natalício, sobre família e saudade • sobre o luto, mas, maioritariamente, sobre amor •

———
👉🏻 um desafio porAna, a abelha - 52 semanas de 2022 - o espírito natalício

👉🏻 este texto estará também no blog da @valletibooks - REFLEXÕES

23
Dez22

Tradição


Fui comprar os palitos de la reine, onde me mostraste no Natal passado. Estacionei na estrada de Benfica, gostavas de passear aqui e ver as montras de lingerie, pijamas, atoalhados, etc. Ias devagar, apoiada na tua bengalinha, as pernas punham-se dormentes e o corpo dorido pelo tempo árduo da tua genica interminável.

A cadeira onde te sentaste a descansar, na pastelaria, ainda lá estava, no mesmo sítio. Estava ela, não estavas tu!

Dói recordar… mas também é encantador reviver a lembrança das tuas mãos, de unhas pintadas num tom branco brilhante, postas nos dedos que já não tinham a direção certa, a remexer no porta moedas de pele preto para te certificares de que pagavas a despesa. Era o porta moedas mais organizado que eu alguma vez vira: notas num dos fechos laterais, moedas grandes no do centro e as pequenas ficavam no outro fecho lateral. Dentro tinha sempre um crucifixo que acreditavas dar-te proteção.

Fiz o caminho que me ensinaste até à casa de cafés e pedi à senhora que moesse o teu café de eleição para aquele doce de fazer crescer água na boca.

Senti-te ali comigo, a observares-me para teres a certeza que eu acertava com os sítios certos e cumpria a tua tradição.

Cumpri avó! Cumpri! Haverá doce de palitos de la reine lá em casa.

Só não haverás tu…

Então, decidi fazer-te uma visita. Ou melhor, estar presente naquele pedaço de relva onde enterraram parte das cinzas dos teus restos mortais. Achei que ali poderia ter uma ligação secreta que permitisse a nossa comunicação. Ou melhor, que facilitasse o teu poder de audição.

Não me deixaram entrar!

Da mesma forma que não me deixaram entrar no hospital nos teus últimos dias de vida.

Por hoje, teremos de comunicar como temos feito no último ano, porque, pelos vistos, os mortos também têm hora marcada para visitas.

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