Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

21
Jan23

La vai ela…


Lá vai ela ao vento a pairar sobre lufadas de ar. Da cor de terra seca, aquela folha desprendeu-se do galho descendente do monumental e antigo Carvalho da Avenida. Não é simétrica e perdeu o aveludado, tornando-se estaladiça em virtude do pouco alimento. Desidratou, morreu e soltou-se ao vento. Está frio e uma aragem gélida, mas suave, que a vai empurrando para adiante, quando mais intensa, também a faz rodopiar, exibindo os seus contornos irregulares, com estreitos cortes quase até à nervura. Gira em torno do seu pedúnculo, numa dança com o vento, até se deixar cair silenciosamente na calçada.

-------

Um desafio proposto por Carlos Palmito: "sou uma folha ao vento, vejam como plano" tenta imaginar a cena e em narrador terceira pessoa descreve tudo o que conseguiste ver.

04
Dez22

O barman


Lá vem ela pedir novamente o seu vodka gingerel com aqueles olhos castanhos escuros expressivos, a condizer com a sua alegria contagiante e o sorriso que a acompanha para todo o lado.

Tem um humor característico, que segue todas as suas deixas, carregando o ar com um aroma nectarino de brincadeira.
Uma inocência que gosto de voltar a sentir, por tão transparente que é, tanto consigo ver o entusiasmo, como consigo sentir-lhe a amargura.
Gosta de sabores ácidos, mas aparenta uma alma tão doce, como se vivesse com uma criança dentro.
Talvez os sabores fortes, intensos a álcool, façam pandã com a sua personalidade vincada, de pêlo na venta, tal qual como o nariz arrebitado que se alteia cada vez que fala, para atestar a sua altivez e descortesia.
O cabelo volumoso, de caracóis rebeldes, revelam a sua independência e os lábios carnudos, a sua sensualidade.
Cada vez que a sirvo sinto uma energia carismática, tão atrativa, que é impossível resistir-lhe e não me deixar pousar-lhe o olhar por uns segundos.

———
👉🏻 um desafio proposto porCarlos Palmito, meu amigo e excelente escritor. Entre 100 a 200 palavras, descrever, sob a perspetiva de um barman, a minha pessoa, depois de lhe pedir uma bebida.

20
Nov22

O mar em mim


Olho no fundo da retina destes olhos. “Quem és tu?”

Um mar de vários oceanos, onde já desaguaram sobejos rios e continuam a respingar outros, advindos de toda a parte do mundo.

Doces, salgados, verdes, enlameados, pequenos ou grandes, rios que se juntam às mil e uma gotas deste meu oceano.

Sou um mar azul, de emoções fortes, por vezes revolto, outras tranquilo.

Nas tempestades faço vórtices na intempérie da escuridão, enlouqueço na maré alta do meu sentir pesado.

Da mesma maneira que o mar, depois do temporal, também em mim se planta a calmaria, repleta de confiança no universo, nos astros, no amor, no cosmos, onde o coração bate ao compasso de uma maré baixa. Então, guardo comigo todas essas marés, uma coleção do que sou, aconchego-as com a maior humildade que acredito ter, para poder honrar o meu percurso e proteger-me das melancolias negras que um e quaisquer pensamentos são capazes de possuir.

Os meus olhos não são azuis. Não têm a cor do mar. Foram-lhe buscar as tempestades, a personalidade, o imprevisível de poder ser o que melhor servir nos diferentes momentos da vida.

Na íris mora o respeito, esse que emerge em cada ondulação do que me possa tornar, já que, na corrente da vida, somos seres de copiosos traços, falar de mim, implica caracterizar o que não pode ter fim. Tal como o mar.

Mas, os meus olhos não são azuis. E, não é por serem de outra cor, que não amam tudo o que abrange o seu olhar.

Acomodam-se neles o amor, um brilho especial pela vida. Julgo ser esse o grande pormenor que me faz amá-los na completude do seu reflexo espelhado.

Estimo-lhes a aprendizagem, empenhando-me para amar tudo o que já fui, pois, todas as marés que romperam em mim, deixaram memórias viscerais semeadas entre os folhos do meu ser.

Como disse: os meus olhos não são azuis, são da cor da terra, onde todo o mar faz baia. Sou raiz, consistência e robustez.

A generosidade também passeia por lá, talvez mais pelo meu sorriso, enorme e luminoso, com o propósito de acrescentar um tanto ao olhar e ao sorriso dos outros, porque, assim como o mar, estimo qualquer chão onde possa repousar.

 

--------

Um desafio da Ana D., nos desafios da abelha.

 

15
Nov22

Cata-pum, cata-pum, cata-pum!


O barulho ensurdecedor de ontem continua a cutucar na minha mente indolente de hoje. Já não sei se foi apenas um estrondo que se prolongou longitudinalmente ou um ruído que se manteve presente em série pelos orifícios dos ouvidos ou nas entranhas das minhas fantasias obsessivas, que há muito parecia já se terem extinto.
A extinção é irreversível e os meus miolos sempre gostaram de uma boa reviravolta. Um contra-ataque inesperado, um golpe baixo, sujo, que evidencie que tudo o que é invisível aos olhos é reversível na mente.
Ouvia-o. E não sabia de onde vinha.
Se aumentava os estímulos externos, ele ficava esquecido por entre a abundância auditiva. Se o silêncio se fizesse ouvir, não era silêncio e eu… ouvia-o.
Que estampido é este que chegou sem epílogo? Insistente, dirigindo-se ao meu âmago em cartas sem quaisquer selos ou remetentes?
Ele continua. Não sei se é loucura, delírio ou invenção. Não lhe encontro o rastilho nem explicação.
Os conflitos cavalgam internamente até os cascos viraram poeira num terreno cerebral esburacado, cheio de obstáculos e lixo nas bermas.
Cata-pum, cata-pum, cata-pum!
Uma luz, vejo uma luz e sigo em direção a ela. Entro num espaço celestial, de paz, uma sensação de conforto interminável, que nunca antes senti. O barulho parou. Ali naquela harmonia espacial, os meus pés flutuavam, os membros afastavam-se do tronco e os cabelos pairavam. Era um lugar onde o amor se espelhava em cada canto. Foi, então, que o ruído voltou a importunar-me os ouvidos, agora parecia que latejava em toda a cabeça. Cata-pum, cata-pum, cata-pum!
E, no meio daquela luminosidade misturada com arranjos florais e cheiro a extase, arregalei os olhos e percebi… era amor. O coração latejava na garganta, entoava no meu peito. Terei sido atingida por uma flecha perdida de um cupido qualquer? Cata-pum, cata-pum, cata-pum! Uma inquietação palpitava-me, numa melodia louca que ressoava toda em mim.
Naquele lugar havia a clareza que ontem, o som do amor ecoou-me a alma até hoje e para sempre.
Cata-pum, cata-pum, cata-pum!

 

--> Um desafio proposto por Ana, a abelha - 52 Semanas de 2022 | tema 25.

--> Sugerido pelo meu querido amigo e escritor Carlos Palmito, que me alertou para estes desafios fantásticos da Ana e ainda adicionou um desafio em cima deste. Para além do tema proposto, colocar as palavras: Extinto, Ontem, Sujo, Selos e Cúpido. 

15
Out22

Quando a lua dança


Noite que se pôs cedo, sob uma lua amarelada e cheia. Como ela odeia o horário de inverno, estes dias curtos e escuros, que a deixam mal-humorada. Segue pelas ruas de auscultadores postos a ouvir as músicas que fazem sentir-lhe as raízes. Por ali, a inveterar pelos ouvidos tudo o que ela é, vai andando ao passo que dança. O corpo contrai-se involuntariamente, está-lhe no sangue, não há como contrariar.

Estas cantigas recordam-lhe a infância, as festas de família, amigos e espectáculos de dança com variados grupos de que fazia parte, julga terem sido o cenário de semeadura daqueles ritmos na sua anatomia, entranhados por todos os orifícios.

Naquele passo díspar, num compasso dissonante dos demais que por ela passam, o olhar vai-lhe vazio, porque se olha a dentro e… Sorri, sorri de prazer com o que a faz sentir.

Nunca ouve uma música do início ao fim, quase como superstição, pois do trabalho até casa, ela tem de conseguir ouvir as melodias que lhe fazem vibrar o corpo.

Lá em cima a lua assiste, grande e magistral, a esta manifestação eloquente do que a junção de tambores lhe impõe à sua espécie, numa cadência e vigor como se não houvesse outro dia.

----

 

👉🏻 também o podem encontrar no #blog da @valletibooks REFLEXÕES nº 38 - 18/09/2022

Mais sobre mim:

Segue-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Calendário

Janeiro 2023

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D