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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

24
Set22

A ilha


A areia é fina, suave e quente. Devolve-me o conforto de outrora sentido quando me deitava no sofá ao som da televisão. Hoje, esta vasta extensão creme é o meu único assento e o som de fundo as ondas do mar.

Podiam ser tempos de plenitude, pausa e… glória. Mas o tempo é infindo, as certezas desconhecidas e a mente inconformada. Já vai longo o tempo que aqui estou, tanto, que o azul turquesa naturalmente se converteu no meu teto durante os dias e o manto de estrelas, nas noites.

Difícil é ser-se, muito mais o é sendo sozinho. A mente, por vezes aliada, outras vezes adversária, torna-se um músculo forte à minha sobrevivência. Se não o treinar, nada é, nem nada sou.

O meu físico está saudável, mas insiste em dizer-me que não estou bem. Nutro o corpo, treino-o, mas não me faço acompanhar de ninguém. Não posso. Permiti-me repousar aqui para ganhar saúde e tudo o que ganhei foi uma prisão perpétua. Sinto-me um selvagem, um ser sem rumo, com um único propósito: existir. Existir dentro desta casca que tenho de alimentar. Eu sou casca, porque dentro já não levo coisa nenhuma. Os meus neurónios desapegaram-se das conexões cerebrais, comandam exclusivamente o aparelho locomotor, enquanto que no cérebro são apenas um chocalho tosco sem nexo. Salto de pedaços de pensamentos em pensamentos e nunca termino o raciocínio. O discernimento fugiu para o couro cabeludo, não faz parte das minhas opções. Aqui tudo é luminoso, brilhante e claro, mas na minha mente não há sol, é sempre inverno tempestuoso.

Hoje pesquei. Não me perguntem o quê, porque não os sei distinguir. O sabor eu já conheço de cor, pois é um dos que rompe muitas vezes no suposto anzol que inventei com um espinho de cato. Mais tarde, sentei-me em meditação, mas a noção esquiva-se e o sol queima que nem lava. O foco desfoca-se e a pele arde.

Queria ouvir o som das ondas do mar, mas tornou-se quase inaudível, pela presença ininterrupta. Ao início era relaxante, forte, penetrante, quase como minha cúmplice, agora… magoa-me.

A solidão magoa-me.

Agarrei-me a este caderno para não perder a cabeça. A cabeça não a perdi, perdi o sentido, talvez todos os sentidos do mundo. Escrevo aqui para me poder ouvir, porque a solidão entope-me os ouvidos e estas letras são a minha companhia. Eu sou a minha única companhia.

A que soa a tua voz? Não me lembro.

Quero recordar os corpos, o contacto, aquele teu toque no meu pescoço, o bafo húmido de uma respiração que não a minha. Não consigo! Não sei! Não encontro memórias desses tempos que me alberguem estes neurónios desconexos.

Escrevo, porque falar já não sou capaz, nem sei se me sai algum som pela boca. Terão as minhas cordas vocais enferrujado? Será assim que se transfigura o ser mais só da terra?

As frases formam-se na minha cabeça, através de imagens que já não sei verbalizar. Existem coisas que já não tem nome. Às vezes, nem eu tenho nome.

23
Jul22

O pintor


Retoque na barba, era o último, aquele que fazia a diferença agora que se olhava novamente ao espelho, antes de sair de casa.
Simples, com uma personalidade catedrática, mas amena, vestia-se sempre de preto ou cores sóbrias, apesar de se considerar algo vaidoso. A barba comprida tinha de estar impecavelmente no sítio, penteada, amaciada e cheirosa. Ele não lhe dava descanso, era a sua imagem de marca.
Saiu rumo ao atelier, o seu local sagrado onde guardava e expunha os seus trabalhos. Filho de família pobre, de mãos gastas com rasgos escurecidos pela terra, a mãe era agricultora e o pai lenhador. O irmão seguiu-lhes os passos, ao invés dele que se apaixonou pelas artes. Poeta e pintor, dedicava-se com especial apreço à pintura a óleo e, na poesia, privilegiava a contemporânea.
Era um homem de poucos amigos, não por ser anti-social, não falasse ele que nem um papagaio, mas porque a sua vida foi gatafunhada na tela e escrita em versos.
Passava o tempo adrentado em arte, os dedos sarapintados e as últimas falanges já com calos, ora da caneta, ora do pincel. Por isso, também não procurou o amor noutra pessoa, uma vez que o encontrou nas páginas por escrever e nas telas por pintar. Completava-se assim, em arte.
Não tinha pressa, nem muito menos intenções, de deixar descendência ou a herança de tamanhas conquistas. Acreditava que o seu trabalho deixaria os próprios marcos na história, eternizando pedaços de tinta no branco, mesmo quando o seu corpo se tornasse poeira.

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