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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

28
Jul22

Alma longa


Sentada no rochedo,

Contemplo este mar azul claro,

Tão claro que se chega a confundir com o céu.

Tão claro como alguns dos olhos que já se cruzaram comigo.

Sentada neste rochedo,

Reparo que a minha vida nada é

Comparada a esta imensidão de mundo.

O mundo é enorme,

Várias possibilidades

Demasiadas opções para uma vida só.

Será que, por isso, existe a reencarnação?

Se existe, deixem-me viver todas elas.

Quero ser tudo e muito, quero viver demasiado, experienciar o mundo.

Habitar vários corpos, com a minha alma.

Viver através de outros olhos, com esta mesma minha alma.

Sejam eles azuis, verdes ou castanhos.

Deixem-me viver!

Sentada neste rochedo,

Dou-me conta da pequenez

Comparada aos grandes rochedos,

Às grandes questões existenciais.

Teremos nós missões a cumprir?

Por sermos tão curtos, mas de almas longas.

 

👉🏻 Texto publicado no blog da @valletibooks- REFLEXÕES N° 30, aceder através do link: www.valletibooks.com.br/blog

👉🏻poderão também ouvir no podcast da @valletibooks através doSpotify.

17
Jun22

Quão longe conseguimos ir por amor?


Corre, corre a passo apressado! Luta com a mesma intensidade que te bate o coração no peito! Não deixes que te fuja o amor da tua vida! Mas, não permitas que te percas nessa correria.

No amor, os horizontes são longínquos e cada um mais desalinhado que o outro. As percepções são desconexas, algumas compulsivas, outras coagidas. Julgas que foram as estrelas que te atribuíram a alma gémea e lançaram-na à terra para a tentares encontrar? Podia dizer estrelas, como outra entidade qualquer, seja lá aquilo em que acreditas.

Mas… quão longe consegues ir nesse jogo? Porque, se realmente estamos todos destinados uns aos outros, o “amor da tua vida” passou a ser um jogo.

Falhas no alvo, voltas à casa inicial. Tiras uma carta fora do baralho, andas três casas para trás. E, quando estás mesmo a chegar ao fim, sai-te uma pista com rasteira e perdes o jogo.

Quão sedutor é este desafio, para o estares constantemente a jogar tornando-se na história da tua vida?

O amor é viciante… aquela sensação de desejo, de ser desejado(a), o medo de não  o ser, as borboletas na barriga que, às vezes, parece que andam de patins no estômago (talvez um patim chegue para cada uma delas).

Era bonito afirmar que o mundo se move pelo amor, mas estaria a ser hipócrita. Quem diz isso, mente! E, aqui, ninguém é santo!

No entanto, vais enfrentando este jogo agridoce, arriscado, só para garantir que não acabas só.

Afinal, quanto vale isso? Qual é o valor a pagar para a não-solidão? Todo o valor é pouco. Não conhecendo as entranhas dos corpos celulares à nossa volta, resta-nos a própria companhia, órfã de preço.

Então, quão longe és capaz de ir por amor? O amor vai até onde quiseres que ele vá. Mas se tiveres de ir, vai junto. Não faz sentido ir longe sozinho, quando o objetivo é estar complementado.

Se tens de continuar a correr sozinho para fora dos limites dos teus valores e princípios (tipo corredor de fundo), talvez quanto mais perto te chegas dele, mais longe estás do amor próprio e o teu respeito foi levado na brisa que te passou por ambas as orelhas.

Poderia ter um milhão de respostas a esta pergunta, mas julgo que quanto mais lutamos de forma desvairada, mais nos vamos perdendo pelo caminho, e no fim, acabamos tão sós, que nem sequer perto de nós mesmos estamos.

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👉🏻 texto publicado no blog @valletibooks Reflexões nº 22 (29/05/2022)

 

 

12
Jun22

Não pari, mas vive uma criança em mim!


Vive em mim uma criança de olhos vivos, cheios de luz, e uma boca carnuda, ainda sem os dentes todos. Expressa-se através da minha forma de caminhar, do riso incontrolável que faz baloiçar os caracóis rebeldes. Anuncia-se pela capacidade de adaptação e do meu humor infantil. Ela alimenta-se do que me é recreio, criatividade e graça.

Na compreensão, na ingenuidade e na empatia, ela pula, canta e dança.

Vive em mim uma criança que perdoa fácil, de uma benevolência desmesurada, consciente, mas ingénua, que chega a ferir a própria pele. Ferimentos fundos que cicatrizam rapidamente, porque o esquecimento surge com uma facilidade mórbida. Tudo o que são dores, ela atulha-as num baú escondido nos escombros turvos das caves do cérebro, e deixa que ganhem bolor, até nada dessas memórias restar.
Então, anda nestas cambalhotas, cima a baixo, entre a mágoa e o reerguer, de tal maneira hábil, que vira brincadeira nas poças enlameadas da vida.

Sou cheia, tão cheia, dessa criança que fala a linguagem universal do amor. Envolvido pelos ossos do crânio está o seu coração e, mesmo assim, mostra-se vulnerável… Vê mais além do que ditam as regras, procura encontrar a aceitação da essência humana de cada um, às vezes para lá do bom senso. Aceitando, de tal forma natural, que lhe flui, num sangue quase transparente, o abrigo a todos os pecados do mundo.

Não tive nenhum parto, já que ela vive em mim, entre nascimentos, mortes e ressurreições. Que não me morra a criança! Nem a quero parir, para que ela prospere a sua nobreza pelas minhas vísceras adentro e que me regurgite a singeleza desta menina leoa de espírito leve.
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👉🏻 texto publicado no blog @valletibooks Reflexoes nº 24 - 12/06/2022

10
Jun22

Incerteza


Pus-me a pensar no que se traduziria a maior causa de ansiedade de todo e qualquer comum mortal, e cheguei à conclusão que é, com certeza, a incerteza. O que será pedirmos um prato cheio e comê-lo às cegas? O que será termos de dar um passo num chão movediço?

A incerteza é este frio na barriga quando ansiamos por bons resultados, quando colocamos muita expectativa no futuro. A incerteza é cruel, mas é a que nos faz desfrutar mais do presente, porque o presente, sim, esse é certo.

Difícil isto de sermos agarrados ao futuro, na ansiedade de que tudo corra como planeámos, com pensamentos a mil kilometros-hora que nos colocam uns tempos mais à frente, impedindo-nos de apreciar o aqui e o agora.

Vivemos neste dissabor de querermos que as incertezas se tornem certezas, quando tudo o que é certo… menosprezamos.

Seremos merecedores de um futuro, quando não sabemos viver o presente? É que a vida passa e o futuro, rapidamente, se torna presente e as incertezas, certezas. De que nos vale? Se continuamos a tratar mal o presente com medo das incertezas paridas no futuro?

A incerteza é uma dádiva para o crescimento, para a reflexão, para nos desafiarmos. A incerteza surge para nos deleitarmos com o que é certo, exato e só o é… no agora.

No entanto, preferimos prosseguir assim, entre agoras e depois, entre rodadas de ansiedade e de incertezas, até à última rodada… onde já não há mais futuro por viver e a única certeza foi a morte.

👉🏻publicado também no blog da @Valletibooks- reflexões nº17 (24/04/2022)

25
Mai22

Ninguém me disse


Sabem quando ficam perplexos com as situações? Quando a indignação conquista todo o espaço cerebral? Talvez o espaço onde são processadas as emoções de alta intensidade… é assim que me sinto! Numa aversão pelos imprevistos e circunstâncias. É que nunca ninguém me disse que a vida era assim, que era isto, estes ciclos de dor-alegria, chorar-rir, morrer-nascer, cair-levantar. Nunca ninguém me disse!

Se, na adolescência, me dissessem que iam haver fases de lua versus sol na minha história, eu não quereria crescer. Ninguém me disse que as pessoas seguiam caminhos diferentes, de forma individual e que toda a adolescência acabaria mesmo ali!

Tão pouco me informaram das decisões, das escolhas que podiam mudar-me o rumo. Até das incertezas se esqueceram de me avisar, quando o que me davam para ler eram histórias de “viveram felizes para sempre”. Mas até essas personagens tiveram dúvidas, viveram nas mesmas hesitações sísmicas que eu.

Também ninguém me disse que iria temer pela morte dos meus, nem nunca me prepararam para isso. Se me dissessem que eu ia trepidar com o toque do telefone, fora de horas, eu preferia não crescer. Os acontecimentos menos bons não escolhem hora, nem o dia perfeito para acontecerem. Simplesmente acontecem! Levam-nos o chão em instantes. Tudo o que era garantido passa a ser incerto ou, até mesmo, dispensável.

Não é fácil, isto de sermos crescidos, dos que vivem com o coração nas mãos, cheios de cuidados. Se não é cuidados com o meio envolvente, é com a língua. Ninguém me disse que teríamos de ser tão apertados de bons modos, de cautelas, responsabilidades e preocupações. Queria ter ficado na infância, quando os meus pensamentos pairavam entre chocolates, bonecas e desenhos animados. Crescemos para conhecer o sabor amargo da tristeza e saber lidar com a aflição. Crescemos para saber colocar tudo numa balança e zelar para que o lado mais pesado seja o das conquistas, do amor e dos momentos felizes.

Ninguém me contou que iria viver numa corda bamba e que ia ter medo de cada vez que me desequilibrasse. Que iria ter medo das quedas e, muito mais medo, das quedas livres, desprovidas de amortecedor. É que ninguém me disse!

Quanto mais o tempo passa, mais conscientes somos do quão frenética a vida é. O tempo dá-nos a vil lucidez, de que não importa o quanto façamos, os acasos, ao acaso, surgem, mudando todo o universo e os universos dentro de nós.

Nunca ninguém me disse que, afinal, estas dores da vida, eram as tão faladas dores de crescimento.

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👉🏻 poderão encontrar este texto no blog da @valetibooks na reflexão n°15 - 10/04/2022

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