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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

01
Mai20

De chuchas ao peito


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Um colar de chuchas penduradas ao pescoço. Várias, como quem carrega o prazer ao peito. Criei uma dependência no conforto de uma chucha na boca e outra que esfregava o nariz pelo gosto da suavidade na pele, um vicio que me aconchegava do peito para cima.

Nunca fui muito fã de Barbies. Eu era a que tomava conta de nenucos, cuidava como se fossem reais e meus. Eu, com chuchas ao peito e viciada em sucção, dava-lhes papas, embalava-os e também a eles lhes dava chuchas para serem tão viciados quanto eu.

Eram tão bem definidos os meus horários de brincar, estudar, deveres e afazeres, como os meus caracóis caídos em cachos pelos ombros. A minha mãe fazia questão que os cumprisse à risca em troca de tempo para ser feliz. Quanto aos caracóis, um dia cortou-mos. E levou-me toda a rebeldia que trazia no cimo da cabeça.

A minha infância foi uma prateleira cheia de VHS de desenhos animados. Filmes da Disney com bolachas Maria e leite ao lanche. Lanches que já nem lhes sei distinguir o sabor.

As bolachas com leite ficaram retidas nas gordurinhas do dorso das minhas mãos e nos refegos, onde houvesse espaço para eles existirem. Gordurinhas que não saiam impunes aos beliscões do meu irmão.

Foi uma infância onde tudo era fácil, excepto o confronto de personalidades entre irmãos. Desde os beliscões, às divergências nos gostos musicais, à disputa pelo tempo ao computador. Uma relação que se tornou num desafio, que não fazia ideia que iria desafiar-me pela vida fora.

Ainda consigo sentir aquele cheiro matinal a Davidoff intenso, perfume carregado de masculinidade, do meu pai. Um pai que marcou a minha infância não só pelo amor, mas pela rigidez. De mãos grandes, fortes e ásperas do trabalho, se havia castigo pior, eram aquelas mãos abertas, de meter medo, sedentas de razão na minha direcção. Reconheço nelas o esforço para que nunca me faltassem cores vivas à minha infância e, todas as manhãs, pairava no ar daquele hall o cheiro a Davidoff que inspirava a todos autoridade e protecção.

Aprendi o formigueiro na barriga com saraus de ginástica e espetáculos de dança antecipados por inúmeras idas à casa de banho inesperadas. Tudo era ritmo e flexibilidade na minha infância. Festas de aniversário cheias de gomas, os triviais pães de forma com queijo e fiambre, brincar ao quarto escuro, às escondidas, o cansaço nunca era desculpa, mesmo quando o suor me colava a roupa ao corpo. Uma infância cheia de hakuna matata’s, onde os problemas eram para esquecer, quando nem sequer existiam e as nossas cabeças caiam para trás de tanto rir. Risos autênticos.

O amor era fácil, escorregava bem entre as goelas. Tive tanta pressa de crescer! Tornei-me à pressa, tanta, que o amor passou a arranhar na garganta. Tanta pressa para ser livre, sem noção que no crescimento há a extinção da magia do hakuna matata e que o amor, talvez até a vida, às vezes custaria a engolir.

Idas à casa da melhor amiga, festas pijama com autorização dos pais, ir brincar para a rua. De uma leveza e graciosidade que fazem doer as memorias. Memorias que ficaram para lá do que me consigo lembrar.

O meu quarto teve várias cores, xadrez de vermelho e verde, mas o laranja e amarelo passaram a ser predominantes. Um espaço cheio de sorrisos até nas prateleiras, também uma coleção de sapos em cerâmica. Sapos a beijarem-se, sapos ginastas, sapos universitários, alguns com brilhantes e disfarces que me despertavam um brilho nos olhos, vá-se lá saber porquê. Prateleiras que custavam a limpar. Mas era o meu dever. Fui uma criança feliz sempre com deveres bem definidos, já não tanto como os caracóis que se transformaram em ondulações assimétricas, a maior tristeza da minha mãe.

As chuchas deixaram de estar ao peito, de orgulho a vergonha. Com um desmame prolongado, de tortura, apenas uma, passou para a gaveta, escondida aos olhares. Com 7 anos ainda sofria deste embaraço. Diziam-me que já era crescida demais para usar chucha, mesmo quando eu não queria crescer.

Hoje, anseio por canções da Disney só para me aquecerem o coração e fazer lembrar de como era fácil. Oh Joana, ainda sabes quantas cores o vento tem? Já nem te lembras da última vez que pintaste o vento. A maturidade roubou-te este saber, o das cores do vento.

 

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

 

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