Feliz Natal, Avó
O Natal ainda me sabe aos teus doces.
É um sabor que dói,
porque traz contigo tudo o que já não posso tocar.
Ainda te vejo na cozinha,
o tempo suspenso nos teus gestos,
as mãos sábias a criar memórias
sem saberes que um dia seriam saudade.
Ainda sinto as tuas mãos nas minhas,
vejo-te sentada no sofá,
e o teu riso — meu Deus, o teu riso —
a encher a casa de vida.
Hoje, o silêncio ocupa esse lugar.
É o teu quentinho que vive em mim,
essa presença invisível que não partiu,
que me segura quando a falta aperta
e me dá força para continuar a sentar-me à mesa
onde perdura uma cadeira vazia.
Homenageio-te todos os Natais.
Hoje, faço-o com os rostos que mais amo,
na esperança de que, daí de cima,
consigas ver esta pequenota traquina
e rias da sua safadeza,
como se ainda estivesses aqui.
A mãe finge que segue rija,
como quem aprendeu a não cair à frente dos outros.
Mas eu sei…
sei o peso das lágrimas que guarda em silêncio,
sei o quanto chora a tua ausência
quando ninguém vê,
quando a noite é longa
e a saudade não dá tréguas.
O Diogo continua à espera do teu arroz de cabidela.
Nunca mais comeu nenhum.
Talvez porque ainda continuemos à espera de um milagre impossível:
que regresses.
Feliz Natal, avó.
