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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

25
Ago25

Um pântano não é um pantanal


Um pântano não é um pantanal.

Uma parte não define o todo.

E o todo é feito de tantas partes que já nem sabe de onde veio.

 

Onde tudo parece estagnar, a vida insiste em florescer.

O pântano esconde raízes retorcidas, lama que engole caminhos,

nevoeiro que turva os olhos.

Terra de sombras e silêncios pesados — terra de resistência.

 

No pantanal, os rios correm largos e livres,

a vida explode em cores,

o horizonte abre-se: vasto, fértil, luminoso.

 

Um pântano não é um pantanal.

Que parte poderá ser o todo?

Que lamas poderão manchar os teus pés,

se os teus passos não se medem pela sujidade que carregas entre os dedos,

mas pela firmeza com que escolhes avançar?

 

O pântano não te define.

Ninguém sabe a grandeza do que és.

És pantanal:

terra generosa, fonte que transborda, vida em expansão.

 

Os pântanos podem provar a tua força,

mas os pantanais celebram a tua abundância.

14
Ago25

Um céu


Havia um céu escondido entre as páginas do vento e tu espreitavas sorridente. Uns dentes imaculadamente brancos apesar dos pequenos desvios nos caninos, os lábios finos como um traço de tinta num quadro inacabado, sorrias com a alma simples de quem é feliz apenas existindo.

Eras a estrela dançante no baile azul-saudade festejado em todos os eclipses entre a vida e a morte. Não te abalas com o que é incontestável e segues, segues de cabeça mais erguida do que o sol quando rompe a noite.

De ti, herdei esse desembaraço, quase como uma segunda pele com a qual não sei viver. Herança ousada de quem nasceu sortudo, como eu, que escolhi entrançar-me em ti e nos demais laços de sangue, nunca sabendo como os desatar das várias partes do meu corpo moído.

Acalcaram-me a vulnerabilidade, porque tudo o que é fraco, não tem sucesso. Dizem eles. As fraquezas são para quem não sabe vencer e eu tinha de vencer. Tenho, aliás. Dizem eles. Não posso falhar, falhas são para os que estão desatentos e quem está desatento não merece glória. Diziam eles, quase sem precisar de falar. Mas tu falavas, exprimias com os olhos pequenos e eloquentes um mar de palavras ao vento, para que ele mas trouxesse dos lumes sumptuosos desse olhar que nada dizia, se não amor. E tu sabias… sabias que a fragilidade se trata com amor.

Havia um céu escondido entre as páginas do vento, folheadas por entre dedos humedecidos pela saliva com sabor a alecrim, alecrim aos molhos. De que me valem os álbuns de memórias tatuadas nos lugares onde choram os meus olhos. De que me valem os céus, as estrelas, o vazio, se o teu nome já não se ouve nem no assobio do vento. Eu vivo desta saudade irreverente que me rasga o peito em pedaços atirados à fogueira. Sou a nostalgia dos teus pedaços que ainda moram comigo. Sou o amor que tantas vezes me deste sem arrecadar.

Havia um céu escondido entre as páginas do vento, e quem ousava escutá-lo aprendia a voar sem asas. Num sussurro, uma oração, enches-me da força de que preciso para continuar. Um anjo da guarda, camada protetora do meu todo, minha companhia, omnipresente, infinita. Espero que guardes a minha e a alma dela, de noite e de dia. Nos eclipses endereça-me a coragem, a determinação e candura que prolongue o meu respirar fecundo. E que continues a saber e a ensinar-nos a voar,  cheia de graça, mesmo sem asas.

03
Ago25

A idade é um número


A idade é um número que o tempo inventou. Porque o ser humano gosta de ter tudo contado, até o tempo do corpo.

Não sei quantos corpos já tive, se a minha alma é feita de tempos que nem a minha mente alcança, dá-me vertigens pensar como cheguei até aqui.

Neste corpo, sou uma mulher feliz! Gosto de lutar pelos meus direitos, e agora pelos da minha filha. Gosto não… TENHO DE!

Ás vezes, sinto que o meu propósito é maior que eu. Isso, ao mesmo tempo que me assusta , traz-me a força de mil homens e a generosidade dos mil e um corações de que sou feita. Contudo, sofro por pensar que posso não ser capaz. Desiludir.

Gosto de comer, especialmente polvo, chocolate e pad Thai. Gosto de escrever sobre o meu mundo, para que possa desembrulhar e interpretar o fluxo do sangue que me faz sentir o que respiro da minha verdade.

Deixei de ter o controlo do mundo e o mais fascinante — é que foi pelas mãos pequenas de quem já sabe dizer o meu nome, com a certeza de quem manda.

O egoísmo deu lugar ao amor incondicional, que nunca se cansa, nunca acaba, nutrido de energia infinita sem saber como, nem porquê. Ela comanda até as rotas do meu pensamento, vivo através dela e, por vezes sem me sentir. Redescobrir-me tem sido uma missão difícil, como todas as que demandam crescimento. Esbravear espaço e tempo numa agenda materna é tarefa de guerreira exímia, sob o olhar julgador de quem acha que o faz melhor.

Eu ainda gosto de ser criança, de me deslumbrar, de olhar o mundo com os óculos do amor, mais agora que tenho quem me acompanhe. Isso não me faz irresponsável, mas sim uma alma inteira — inteira para amar, para rir alto, para inventar mundos debaixo das mantas, para transformar rotina em magia e constatar que o tempo foi inventado a uma velocidade desproporcional para quem gosta de viver presente.

Sou feita de gargalhadas e cuidado, de colo e tempestades, de histórias contadas com os olhos a brilhar, de canções cantaroladas no silêncio perfumado de mãe.

A minha criança interior não me distrai do meu papel, ela guia-me, lembra-me do que é essencial. A minha alegria não é distração — é resistência. O meu riso não é descuido — é abrigo. O amor com que te educo não é leve — é imenso, é escolha diária. Porque ser mãe, para mim, é ser raiz e vento, porto e aventura, é saber cuidar sem apagar a luz que me acende. E quem melhor para criar um pequeno universo, do que alguém que ainda acredita que o mundo pode ser encantado?

O mundo está um lugar perigoso, há dias que temo e questiono se de nada valerá tanto esforço. Se continuar a acreditar na luz, fará diferença quando tudo parece escuro. Mas se o mundo é duro, que em casa haja ternura. Se lá fora é guerra, que em nós haja dança e um pedaço de infância que ninguém nos roube.

 

Hoje, mais um 2 de Agosto, mais um “parabéns a você” cantado em plenos pulmões, mais um ano, mais passos dados, às vezes firmes, às vezes tropeçados, mas sempre com o coração inteiro.

Quero deixar o meu legado, não só para o corpo que virá depois, mas para ti, que me tornaste imensa, que me fizeste espelho e céu aberto.

Lembrar que o essencial vive nos gestos que se repetem com doçura, nas palavras que abraçam, na liberdade de seres quem és, sem medo.

Porque crescer não é só envelhecer. É saber onde dói, e ainda assim avançar. É não precisar ser eterna — mas ser inteira.

E no fim de tudo, quando tudo em mim se cala, será sempre o amor que resiste.

01
Ago25

Carta dos céus


Estou aqui, filho.

Vivo nos teus arrepios de pele, no ar que inspiras. Sou a tua mais dolorosa nostalgia. Bem sei o quanto te dói recordar-me e, ainda mais, amar-me no vazio de um céu que não vês mas que te esforças por acreditar que existe.

Cada um acredita no que quer, ou no que mais lhe convém. Somos seres de uma esperança tão eterna quanto o fundo do universo.

Será que tem fundo? Fim? Pois não te sei dizer… Escrevo-te de um lugar onde o tempo não pesa e a ausência é só um outro jeito de estar.

Costumo falar-te ao ouvido, às vezes dou-te conselhos, relembro-te recados que tens para fazer, outras vezes canto-te cantigas do nosso clube. Coisas que não ouves, mas eu encorajo-me sempre a continuar. Precisas destes lembretes, nunca foste muito atento na escola e agora… também te distrais com tanta informação a cavalgar na tua direção.

Costumo rir-me dos teus disparates. E na maior parte, riu-me com todas as minhas forças. Sinto falta de me rir assim, até me doer a barriga ou virem-me as lágrimas aos olhos. Neste mundo onde vivo agora, nada sinto. Se não, saudade.

Saudade é uma palavra bonita para significar tamanha dor. Logo eu, que fui-me repentinamente como uma vela acesa ao vento. Eu sei que não esperavas que eu fosse, para ti sempre fui um herói inabalável, intocável até pelas mãos de Deus. Eu sei, meu filho, aliás neto. Também sei que choras porque nunca tive nos braços a tua filha e não lhe apanhei os trejeitos… enganas-te, rapaz! Sou o teu maior espião. E sei bem quantas vezes lhe repetes quem eu sou, para que ela me reconheça nas fotografias, como uma borboleta presa numa moldura de vidro. Preservam-me a forma mas não a essência. Só tu sabes a minha essência. Só tu a sentes. Sabes bem do que falo, meu campeão.

O avô vive nas histórias que te contou, algumas nas que te contaram. Vivo no sabor das carcaças frescas em dias de verão, no som sonante de um golo em estádio cheio, nas boleias entre a escola e casa, nas torradas ao pequeno-almoço antes de ires para a escola, num belo copo de vinho de pacote. Mas também estou nos gestos gentis que espalhas pelo caminho, no amor que cultivas em cada passo, no respeito que tens ao próximo, estou nestes valores e noutros gestos que de mim herdaste. Não estás sozinho!

Também eu sinto a tua falta. Ai mãe! Parti sem a despedida que merecíamos… Se o tempo nos tivesse dado esse momento, não saberíamos o que dizer. Ficaríamos ali, frente a frente, presos entre a dor da partida e o desejo de segurá-la um pouco mais, como quem tenta reter a areia entre os dedos. Então, o destino poupou-nos das palavras que nunca seriam suficientes. Fui sem aviso, mas não sem amor, pois lembra-te que a saudade é só outra forma de amar.

Oh mancamulas, não te deixes ficar para trás! Vive com a coragem de quem sabe que nunca está só. Porque o adeus que nunca houve é a prova de que, de algum jeito, eu nunca fui.

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