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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

28
Set22

Já é outono!


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Tal qual um ciclo,

As folhas desprendem-se

Morrem e caiem

Acompanham-nas as primeiras gotas de chuva

Com um rasto a terra molhada e folhagem

 

Na concha das mãos levam-se frutos secos, figos, nozes e afins

As castanhas impregnam o ar

Assadas com erva doce

E água pé a acompanhar

 

Vestem-se os primeiros casacos

Ainda com o mofo da gaveta,

De uma época inteira guardados

À espera que o São Martinho apareça.

 

Os rituais das bebidas quentes,

Chá de erva-príncipe

Camomila ou lucia-lima,

Chocolate quente e cafés adoçados

São os aromas que ficam no ar

Carregado de cores terra e vermelho-alanrajados

 

E a avó cozeu os marmelos

Na avantajada e antiga panela

Aromatizou o ambiente

Com o sagrado pau de canela.


👉🏻 também o podem encontrar no #blog da @valletibooks REFLEXÕES nº 39 - 25/09/2022

📸 by: Bruno Ismael Alves

24
Set22

A ilha


A areia é fina, suave e quente. Devolve-me o conforto de outrora sentido quando me deitava no sofá ao som da televisão. Hoje, esta vasta extensão creme é o meu único assento e o som de fundo as ondas do mar.

Podiam ser tempos de plenitude, pausa e… glória. Mas o tempo é infindo, as certezas desconhecidas e a mente inconformada. Já vai longo o tempo que aqui estou, tanto, que o azul turquesa naturalmente se converteu no meu teto durante os dias e o manto de estrelas, nas noites.

Difícil é ser-se, muito mais o é sendo sozinho. A mente, por vezes aliada, outras vezes adversária, torna-se um músculo forte à minha sobrevivência. Se não o treinar, nada é, nem nada sou.

O meu físico está saudável, mas insiste em dizer-me que não estou bem. Nutro o corpo, treino-o, mas não me faço acompanhar de ninguém. Não posso. Permiti-me repousar aqui para ganhar saúde e tudo o que ganhei foi uma prisão perpétua. Sinto-me um selvagem, um ser sem rumo, com um único propósito: existir. Existir dentro desta casca que tenho de alimentar. Eu sou casca, porque dentro já não levo coisa nenhuma. Os meus neurónios desapegaram-se das conexões cerebrais, comandam exclusivamente o aparelho locomotor, enquanto que no cérebro são apenas um chocalho tosco sem nexo. Salto de pedaços de pensamentos em pensamentos e nunca termino o raciocínio. O discernimento fugiu para o couro cabeludo, não faz parte das minhas opções. Aqui tudo é luminoso, brilhante e claro, mas na minha mente não há sol, é sempre inverno tempestuoso.

Hoje pesquei. Não me perguntem o quê, porque não os sei distinguir. O sabor eu já conheço de cor, pois é um dos que rompe muitas vezes no suposto anzol que inventei com um espinho de cato. Mais tarde, sentei-me em meditação, mas a noção esquiva-se e o sol queima que nem lava. O foco desfoca-se e a pele arde.

Queria ouvir o som das ondas do mar, mas tornou-se quase inaudível, pela presença ininterrupta. Ao início era relaxante, forte, penetrante, quase como minha cúmplice, agora… magoa-me.

A solidão magoa-me.

Agarrei-me a este caderno para não perder a cabeça. A cabeça não a perdi, perdi o sentido, talvez todos os sentidos do mundo. Escrevo aqui para me poder ouvir, porque a solidão entope-me os ouvidos e estas letras são a minha companhia. Eu sou a minha única companhia.

A que soa a tua voz? Não me lembro.

Quero recordar os corpos, o contacto, aquele teu toque no meu pescoço, o bafo húmido de uma respiração que não a minha. Não consigo! Não sei! Não encontro memórias desses tempos que me alberguem estes neurónios desconexos.

Escrevo, porque falar já não sou capaz, nem sei se me sai algum som pela boca. Terão as minhas cordas vocais enferrujado? Será assim que se transfigura o ser mais só da terra?

As frases formam-se na minha cabeça, através de imagens que já não sei verbalizar. Existem coisas que já não tem nome. Às vezes, nem eu tenho nome.

15
Set22

Um possível fim


 

De que nos vale a inteligência ou a força humana, quando comparados à força da natureza?

Num mundo cheio de paisagens, criaram o homem cheio de impureza.

A catástrofe? Foi a ganância.

Os homens obcecados com cifrões e a terra que pisam deixou de ter importância.

Ambição pelo poder, quando o poder é apenas um estatuto.

Usou-se e abusou-se do planeta, julgando-o um recurso inesgotável e absoluto.

A extinção fez a guerra. Homens que se matam por terra.

E, inesperadamente, é a natureza que se revolta, zangada com a humanidade.

Que largou o amor e o ódio anda à solta.

Pela sobrevivência, conseguimos ser abomináveis.

A sentença foram águas salgadas, impiedosas forças inquestionáveis.

Lavaram e levaram as almas pecadoras,

ambiciosas e destruidoras.

Afogaram-se os desejos egoístas, através de um manto salgado, que cessou a vida aos homens, inclusive aos narcisistas.

11
Set22

De que destino falo?


As ruas eram velhas, edifícios pequenos mas coloridos, de um colorido berrante, quase percorrendo um arco-íris rua fora. Apesar da cor, não destoavam da antiguidade presente na atmosfera, alguns até em ruínas amontoavam-se na imagem caduca de tempos percorridos por guerras civis, dissonante do povo de festa, quente e alegre. As peles morenas, os bigodes farfalhudos, de indumentárias floridas ou camisas brancas, este povo fazia música em cada canto da cidade. Passeavam-se em carros antigos, Cadillac, Chevrolet, Ford, Buick, resquícios que ficaram da revolução comunista. Estes, também de cores berrantes, atravessavam a cidade, dando-lhe um toque vintage requintado, numa cidade repleta de recordações de guerra, estátuas dos revolucionários, marcas de duras batalhas e museus que sobrevivem de todo o arsenal utilizado na época.
Ruelas de alpendres alargavam-se em pequenas praças, ora de música, ora de comércio. Negociavam-se charutos, artesanato, rum, instrumentos musicais e comida típica, tudo quase na mesma bancada, sem qualquer distinção.
Ao longo de uma bonita costa de mar rebelde azul turquesa, ergue-se Havana, a cidade que vive animadamente o presente, mas com uma paisagem ilustrada de passado.

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👀 Conseguem adivinhar a que destino pertence esta descrição? 

 

05
Set22

A cor dela


Ela veste-se da cor do sangue, só porque tem a mania de ser arrebitada e enérgica. É viciada no calor que o vermelho lhe transmite, quer à pele, quer à alma. Esse fogo que sente pelo corpo fora leva-a à loucura, aos sentimentos da paixão, do amor, da vivacidade, numa euforia plena de viver a vida a vermelho.

De uma personalidade carregada de força, segue de coração na boca, onde o vermelho também lhe pinta os lábios.

E no avermelhado ela perde-se, navegando pelas emoções de alta intensidade, as únicas que sabem preencher todo o seu volume.

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👉🏻 Também publicado no blog @valetibooks - REFLEXÕES Nº35 - 28/08/2022

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