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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

10
Mai20

Pedaços de pele à mostra


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Muitas são as perspectivas do corpo e das modas. Muitas são as partes que andam de fora. Carne que sobressalta das mini-saias, dos calções. Saliências que sobressaem no decote. Umbigos que espreitam o cós das calças.

Hoje, com o partes do corpo de fora, venho-vos falar do constrangimento. Não do corpo. Mas, do revirar de cabeças, dos olhares, comentários, piadas, tentativas de assédio e assédios. O cortejo com o devido respeito afaga o ego, já os desapropriados, ordinários e grosseiros conseguem atormentar qualquer um.

É com algum azedume que admito não ser fácil sair à rua com a roupa preferida, decente, mas arrojada no que toca aos centímetros de pele à vista. Não é fácil sentirmo-nos confiantes ao espelho, para, assim que pomos um pé na rua, sermos olhadas com saliva na boca e olhos arregalados. Como se fossemos um granda bitoque cheio de batatas fritas com ovo a cavalo, no meio de um jejum com mais de 16h. Não é fácil. Nem justo. Ter de escolher roupa pelos olhos dos outros.

Porque o semi-escondido desorienta os cérebros minúsculos dos indecentes. Não sei de que material são feitos, esses cérebros, se de desrespeito, machismo ou se de testosterona até ao couro cabeludo que os impede de raciocinar de forma cortês. A discrição é chique, mas não faz parte dos gulosos do bairro. A valorização por debaixo de tudo o que se leva vestido, a beleza muito para além dos contornos dos corpos, também não fazem parte dos obscenos da socialite.

Custa ser mulher quando não se é respeitada, muito mais por desconhecidos, que assumem que um corpo à vista tem de ser regateado. Sem o mínimo de recato. Custa ser mulher quando somos violentamente obrigadas a abdicar da própria liberdade, a do corpo, para dizimar olhares, comentários, ou até pior.

Submeter um corpo a uma avaliação forçada. São adjectivos, bons ou maus, mas que não foram requisitados. Um corpo que não é publico e as opiniões acerca dele ainda são assuntos íntimos.

 

Imagem por: Catarina Alves - freezememories_

 

05
Mai20

Do verbo dar


Sou do verbo dar, no todo o tempo que sou.

O melhor ou o pior, dou… Dou porque é dando que somos uns dos outros.

Dar atenção, flores, dar abraços e beijos. Sem dar conta de que dou beleza, daquela que não tem fim.

Dou o coração, metendo a saúde em risco, dou borboletas na barriga, dou sorrisos feitos de sóis daqueles que fazem bronzear as almas.

Até palavras as dou, desde o momento que o ar passa as cordas vocais, já fazem parte do verbo dar. Dar graças, gracejos ou silêncios, dou tudo em forma de nadas.

Nesta miscelânea do que posso dar, vou criando um cesto de oferendas que me fazem chegar mais perto. Que me aproximam da verdadeira essência do ser humano. Até do mundo.

Escolho do cesto o que dar, sem conhecer preços, não importam. É um cesto sem fundo, pois no que toca a dar, escolherei sempre haveres infinitos, os que não são feitos de bens, mas de bem-quereres.

 

01
Mai20

De chuchas ao peito


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Um colar de chuchas penduradas ao pescoço. Várias, como quem carrega o prazer ao peito. Criei uma dependência no conforto de uma chucha na boca e outra que esfregava o nariz pelo gosto da suavidade na pele, um vicio que me aconchegava do peito para cima.

Nunca fui muito fã de Barbies. Eu era a que tomava conta de nenucos, cuidava como se fossem reais e meus. Eu, com chuchas ao peito e viciada em sucção, dava-lhes papas, embalava-os e também a eles lhes dava chuchas para serem tão viciados quanto eu.

Eram tão bem definidos os meus horários de brincar, estudar, deveres e afazeres, como os meus caracóis caídos em cachos pelos ombros. A minha mãe fazia questão que os cumprisse à risca em troca de tempo para ser feliz. Quanto aos caracóis, um dia cortou-mos. E levou-me toda a rebeldia que trazia no cimo da cabeça.

A minha infância foi uma prateleira cheia de VHS de desenhos animados. Filmes da Disney com bolachas Maria e leite ao lanche. Lanches que já nem lhes sei distinguir o sabor.

As bolachas com leite ficaram retidas nas gordurinhas do dorso das minhas mãos e nos refegos, onde houvesse espaço para eles existirem. Gordurinhas que não saiam impunes aos beliscões do meu irmão.

Foi uma infância onde tudo era fácil, excepto o confronto de personalidades entre irmãos. Desde os beliscões, às divergências nos gostos musicais, à disputa pelo tempo ao computador. Uma relação que se tornou num desafio, que não fazia ideia que iria desafiar-me pela vida fora.

Ainda consigo sentir aquele cheiro matinal a Davidoff intenso, perfume carregado de masculinidade, do meu pai. Um pai que marcou a minha infância não só pelo amor, mas pela rigidez. De mãos grandes, fortes e ásperas do trabalho, se havia castigo pior, eram aquelas mãos abertas, de meter medo, sedentas de razão na minha direcção. Reconheço nelas o esforço para que nunca me faltassem cores vivas à minha infância e, todas as manhãs, pairava no ar daquele hall o cheiro a Davidoff que inspirava a todos autoridade e protecção.

Aprendi o formigueiro na barriga com saraus de ginástica e espetáculos de dança antecipados por inúmeras idas à casa de banho inesperadas. Tudo era ritmo e flexibilidade na minha infância. Festas de aniversário cheias de gomas, os triviais pães de forma com queijo e fiambre, brincar ao quarto escuro, às escondidas, o cansaço nunca era desculpa, mesmo quando o suor me colava a roupa ao corpo. Uma infância cheia de hakuna matata’s, onde os problemas eram para esquecer, quando nem sequer existiam e as nossas cabeças caiam para trás de tanto rir. Risos autênticos.

O amor era fácil, escorregava bem entre as goelas. Tive tanta pressa de crescer! Tornei-me à pressa, tanta, que o amor passou a arranhar na garganta. Tanta pressa para ser livre, sem noção que no crescimento há a extinção da magia do hakuna matata e que o amor, talvez até a vida, às vezes custaria a engolir.

Idas à casa da melhor amiga, festas pijama com autorização dos pais, ir brincar para a rua. De uma leveza e graciosidade que fazem doer as memorias. Memorias que ficaram para lá do que me consigo lembrar.

O meu quarto teve várias cores, xadrez de vermelho e verde, mas o laranja e amarelo passaram a ser predominantes. Um espaço cheio de sorrisos até nas prateleiras, também uma coleção de sapos em cerâmica. Sapos a beijarem-se, sapos ginastas, sapos universitários, alguns com brilhantes e disfarces que me despertavam um brilho nos olhos, vá-se lá saber porquê. Prateleiras que custavam a limpar. Mas era o meu dever. Fui uma criança feliz sempre com deveres bem definidos, já não tanto como os caracóis que se transformaram em ondulações assimétricas, a maior tristeza da minha mãe.

As chuchas deixaram de estar ao peito, de orgulho a vergonha. Com um desmame prolongado, de tortura, apenas uma, passou para a gaveta, escondida aos olhares. Com 7 anos ainda sofria deste embaraço. Diziam-me que já era crescida demais para usar chucha, mesmo quando eu não queria crescer.

Hoje, anseio por canções da Disney só para me aquecerem o coração e fazer lembrar de como era fácil. Oh Joana, ainda sabes quantas cores o vento tem? Já nem te lembras da última vez que pintaste o vento. A maturidade roubou-te este saber, o das cores do vento.

 

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

 

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