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Tem juízo, Joana!

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

Entre o certo e o errado, o perdido e o achado, o dito e o não dito, encontros e desencontros, da pequenez à plenitude, entre a moralidade e a indecência. Se tenho juízo? Prefiro perdê-lo…

13
Abr20

O sabor da recompensa


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Amar intensamente é uma linguagem que falo fluentemente. Então, amo sem olhar a meios. Mas adoro os meios, adoro os percursos, participar activamente nas jornadas do amor, seja ele qual for. No entanto, suspiro pelos fins a transbordar de expectativas. Aqueles fins com cheiro a prémio. Corro feroz e atrapalhadamente cega pelas expectativas cobertas de recompensas, reconhecimento e aprovação. Como os cães correm, balançando a cauda, à espera do biscoito. Ou, melhor, como a história do burro e da cenoura.

Mas e… quando a cenoura nunca se alcança? Ou apenas conseguimos morder-lhe um pedaço?

Sabe a pouco. Sabe sempre a pouco. Avalio o que dei e comparo com o que me dão. E, será sempre pouco. Claro que, para além de ser uma amante do amor, tinha de ser praticante assídua da tarefa sublime que vos trago hoje: cobrar.

Pratico-a mesmo sabendo que é errado, sabendo que o amor não pede nada em troca, não tem cenouras, que é voluntário. E pior, às vezes, nem dou conta. Bom… claro que dou conta não estivesse eu a escrever sobre isto.

Não atribuo as culpas só às expectativas, também a falta de reconhecimento tem o seu papel influente nisto. Cobro por dar o melhor de mim, por fazer tudo pelo outro, por amor, por gosto, por prazer, por compaixão. Encho o peito de orgulho de saber que fiz e dei tudo de mim. Mas não chega! Agarro no orgulho e ando com ele ao peito, inchado, para dar nas vistas. Ainda faço uns sons de alerta e expirações profundas daquelas ruidosas, só para chamar a atenção e ter uma reação do outro lado. Ora… não sou digna de saborear uma cenourinha? Cá estou eu a cobrar.

Mesmo não correspondendo às expectativas, que isso já deitei a perder, cobro quando não há reconhecimento de todos os meus feitos, das calorias, das energias, do tempo que gastei, do amor que depositei. Não há reconhecimento, é simplesmente mandado ao lixo, ao abandono, ao esquecimento. Dói. Pois, dói.

Cobro por saber que mereço. Fiz por merecer. Dói ainda mais.

Eu sei, sei que devemos amar sem cobrar, sei que devemos dar sem querer nada em troca. Cobrar é uma travagem brusca na espontaneidade do receber. E quem não gosta de receber amor espontaneamente, assim de surpresa? Até sabe melhor! Quem prefere receber amor forçado? Ninguém. Então cobrar é um veneno! Um veneno fatal para o amor. Um veneno até para nós que o snifamos. Porque passamos a focar-nos apenas no que nos faz falta, na cenoura, depositamos energias na espera por recebê-la, desligando-nos do mundo interior e do que nos rodeia. Um veneno! Snifar disto só faz crescer insatisfação.

Mas libertar-nos disto é um processo cheio de espinhos. O processo da gratidão, do amor sem limites, da paz interior. O processo onde o motivo é o mais importante. E o motivo não é a cenoura, não é a recompensa final. O motivo é o amor, na sua forma mais cristalina e humilde de ser. 

Este processo seria mais fácil se todos os seres humanos também o praticassem. É injusto para os que dão amor e a vida, se for preciso. Porra, é injusto! Mas amar deliberadamente, sem cobrar, é também ter fé que essa justiça não nos cabe a nós e que esse é o caminho moral.

Então, tem juízo, Joana! Cobras prontamente o amor às pessoas que te são tudo, quando nem consegues cobrar dinheiro a quem te é nada. Coerência, se faz favor, e, deixa-te de merdas!

Amar para dar o que temos, amar, sem que os egos comparem, o que nos dão. E essa é a verdadeira forma de amar. No amor, a cenoura não deve estar à frente, porque o motivo deve estar em nós.

Imagem por: Catarina Alves - Freezememories_

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